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Manuel Rocha

José Firmino: O compositor que gostava do mar

24 de Março 2023

José Firmino Morais Soares era homem dos vários ofícios da Música. Nasceu em Chaves, corria Abril de 1931, e dali levou pela vida fora o claríssimo soletrar do sotaque flaviense e o talento musical por que viria a responder. Iniciou labores na Academia Musical Flaviense, depois de concluir os Cursos Superiores de Composição e de Piano, mas seria em Coimbra que viria a passar a maior parte da sua vida. Aqui formaria família, por cá nasceriam os filhos.

Antes de assentar (e também depois), irrequieto que sabia ser, procurou em Portugal e além-fronteiras os melhores para aprofundar conhecimentos em composição, pedagogia musical e direcção coral. Emanuel Nunes, Michael Corboz, Jos Wuitack e Olivier Messien foram, entre muitos outros, os mestres de que colheu os ensinamentos que transformaria em prática artística e pedagógica, tão rica como extensa.

José Firmino, o Pedagogo, concebeu programas escolares, orientou estágios, formou professores, proferiu conferências, criou um programa televisivo (Música e Fantasia), foi professor de Formação Musical, de Análise e de Composição no Conservatório de Música de Coimbra que criou, integrando a respectiva Comissão Instaladora (1985). Deixa-nos ainda um conjunto de manuais de Formação Musical de uso generalizado, responsáveis pela aquisição de conhecimentos de leitura musical de muitas gerações de músicos.

José Firmino, o Maestro, fundou (1972) e dirigiu, ao longo de duas décadas, o Choral Poliphonico de Coimbra. Ajudou a fundar e dirigiu o Coro dos Pequenos Cantores de Coimbra, para ser músico e pedagogo ao mesmo tempo. Será difícil contar – por serem muitas – as vezes que subiu ao palco com aquelas formações corais, com as quais calcorreou Portugal inteiro e, muitas vezes, atravessou fronteiras.

José Firmino, o Compositor, deixa-nos um largo espólio de partituras para coro, orquestra, instrumento, voz, música de câmara, arranjos e harmonizações de canções populares. Pela música que compôs foi premiado e celebrado, em sede musical e também pelas Câmaras Municipais de Coimbra e de Chaves. A sua música foi apresentada por solistas e formações orquestrais de renome, aplaudidas por um público numeroso.

José Firmino, o nosso, gostava de caminhar. Caminhava quilómetros todos os dias, por razões de saúde física mas também por razões de impulso criativo – “às vezes”, contava-nos, “é nas caminhadas que me surgem os temas das composições”. O Professor Firmino, como carinhosamente lhe chamávamos, gostava também de mergulhar no mar frio da Figueira da Foz onde, uma vez aposentado, passou a permanecer por longos períodos. Vestia o seu fato de mergulho e ia oceano adentro, numa visita breve ao útero que gerou os animais todos do Planeta. Um dia, porém, há poucos anos, foi levado pela corrente e viu-se desamparado – um jacques-cousteau sem barco nem bússola, apenas o céu por cima e o vasto Atlântico pelos restantes lados. Uma traineira que ia a passar, a caminho da faina, lá deu com o náufrago e socorreu-o, declaradamente a contragosto: “o Mestre do barco chamou-me os nomes todos, sabe lá! Tratou-me por tu e disse-me ‘tu andas aí a gozar com o mar, a faltar ao respeito ao mar, e um dia não há quem te acuda’. Não quer saber? Nem me desembarcou no cais. À entrada do porto mandou-me saltar e tive de nadar até à praia”.

O Professor Firmino era uma espécie de herói dos livros de aventuras, saltando apressado, audaz e feliz das linhas do pentagrama para os trilhos de mar e terra. Foi velado na bela Capela da Misericórdia de Buarcos. No adro do templo, à passagem do caixão, um grupo de coralistas despediu-se do Maestro cantando “águas das fontes calai / ó ribeiras chorai / que eu não volto a cantar”. Volta a cantar sim – mas, agora, através das nossas vozes.

(*) Professor do Conservatório de Música de Coimbra