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Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Há médicos e médicos

24 de Março 2023

Tal como na sociedade, não se deve caracterizar o todo pelas partes, pelo que se compreenderá que há médicos que têm uma visão humanista e solidária, entranhados nos problemas do mundo global, e há médicos com concepções elitistas e mercantilistas, que julgam passar incólumes a tudo o que não seja o seu ego.

Não é novidade esta análise, embora todos os médicos existam em função da sua profissão meritória e digna e da existência de doentes, cuja relação profissional beneficia ambos, permitindo melhor desempenho e resultados.

O que é novidade é existir um novo Bastonário dos médicos, o que saudamos, ainda que esta designação, reservada aos presidentes das ordens profissionais, possa ser favorecedora da imagem de atribuição de privilégios a classes pernósticas, e a etiquetá-las de corporativas.

Carlos Cortes, novo representante dos médicos, é uma lufada de ar fresco na construção de ideias que colocam o médico e o doente como prioridade, em defesa de ambos, em reconhecimento de disfunções do sistema de saúde e das distorções do SNS, e em contributo para novos esquemas organizativos e ligações estruturais de prestação de cuidados.

Ainda mal tinha acabado de tomar posse, já havia médicos que manifestavam o seu distanciamento quanto ao Bastonário por, imagine-se, ter abordado no seu discurso as alterações climáticas e a discriminação de género, obviamente como problemas, onde é preciso intervir.

Além de o invetivarem, tais médicos do século XIX acusavam os colegas que defendem o programa de Carlos Cortes de ser seus apóstolos, numa terminologia desajustada e de nível duvidoso, como se não houvesse a liberdade de opinião nem a criatividade de acção, que em alguns se manifesta apenas para ofender outros.

Sentir-se à margem da existência da discriminação de género como problema, no qual todas e todos podem contribuir para ultrapassar, é desconhecer a igualdade de género como base de união familiar no equilíbrio estrutural e de poder, é desvalorizar a igualdade no trabalho, emprego e formação profissional, é ignorar o diálogo sobre a igualdade e a equidade, a ajuda e a partilha, os seus reflexos na união e as potencialidades da relação.

Ignorar a vida

Ignorar a gravidade das alterações climáticas e a necessidade de descarbonização é ignorar a vida das pessoas que dizemos defender (entre as quais os médicos se incluem), é desprezar a transição energética para fontes de energia renováveis, a utilidade da economia circular, a modificação dos padrões de mobilidade urbana e a gestão da água e da floresta.

Temos esperança na nova condução da Ordem dos Médicos onde, além dos problemas do mundo global, está explicita a imperiosidade do respeito dos decisores e da população pelos médicos, e a promoção da defesa profissional, através da melhoria das suas condições de trabalho e recursos disponíveis, as carreiras retomadas e remunerações adequadas.

Defendo os médicos, onde me incluo com muita honra, por serem quadros de excelência, profissionais dignos, seres humanistas e provedores do doente. Não defendo aqueles médicos que dizem que as alterações climáticas e a discriminação de género “são temas para discussões de café e divisionistas”.

Como dizia Abel Salazar, “o médico que só sabe de medicina nem de medicina sabe”. A par das legítimas reivindicações médicas, a humildade também ficaria bem a quem se sente acima da Humanidade, demonstrando duvidosa humanidade.

(*) Médico