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Semanário no Papel - Diário Online

 

António Sérgio Marques

Crónicas “de escárnio e maldizer”: Ecos do passado (II)

10 de Março 2023

Quando tiver tomado, porque o fará, o resto da Geórgia, a Arménia, as corruptas e autocráticas ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central, e o alvo se focar nos pequenos Estados do Báltico – membros da UE e da NATO, mas historicamente vassalos ou parte integrante do império russo/soviético – o Ocidente não poderá recuar mais, mas, nessa altura, a dimensão e o custo humano e material para contrariar o avanço da avalanche do Império do Rus sobre a Europa serão extraordinariamente maiores e mais difíceis de explicar às opiniões públicas – que, em democracia, importam, são mais exigentes e melhor informadas, e menos dispostas a ceder os seus filhos como “carne para canhão” para as ‘guerras dos outros’ – o que poderá condicionar a reacção ou ditar mais uma capitulação perante o Senhor das Rússias.

E, claro, outros Senhores se sentirão tentados a seguir-lhe os passos, animados pela impunidade absoluta das suas aventuras belicistas: o Império do Meio, sob a iluminada orientação do todo poderoso Xi Jinping, não hesitará em abraçar Taiwan no seu seio (sem pedir licença ao visado); o Grande Líder norte-coreano prosseguirá o seu programa nuclear e os seus testes balísticos continuarão a despejar mísseis em águas internacionais ou de outras soberanias; a Arábia Saudita esmagará definitivamente o Iémen e quantos pequenos Estados questionarem a sua sagrada liderança regional; a Turquia de Erdogan reforçará a sua vocação imperial, a sua prepotente ocupação de Chipre, e a sua propensão para cometer genocídios nos territórios sob o seu domínio, onde as populações arménias, curdas, yazidis e azeris têm recorrentemente sido alvo da intolerância e da fúria racista otomana. Os candidatos a discípulos devotos da filosofia ultra-nacionalista e da geopolítica unilateralista e imperialista de Putin serão muitos mais, no presente, e mais ainda, no futuro.

O tempo esgotou-se

Hoje, o tempo do apaziguamento esgotou-se, no momento preciso em que Putin, à boa maneira estalinista, reescreveu a História e apagou a Ucrânia – a sua cultura, a sua língua, a sua história, a identidade de um povo e o Estado que a corporiza – dos compêndios e da memória russos, diluindo uma nação inteira de 44 milhões de pessoas na imensidão voraz do Império, um gigante feroz que vive no medo de se descobrir na frágil condição da sua decadência material e da sua falência espiritual.

Os tanques do Exército Vermelho já galgam as terras geladas de um país alegadamente inventado há um século pelo capricho revolucionário de outro Vladimir – Vladimir Ilyich Ulianov, que a história registou com onomástica economia como Lenine, figura insuspeita de perfilhar de ideais russófobos ou favoráveis à independência das nações integrantes da recém-formada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Um país ‘recente’, mas cuja capital, Kiev, foi fundada em 882, quase três séculos antes de Moscovo, que, apesar de todas as vicissitudes, glórias e tragédias da sua história política intermitente e plena de convulsões, eclipses e renascimentos – vicissitudes comuns, aliás, à história político-militar de toda a Europa Oriental, Central e Meridional – desenvolveu em largas regiões do seu actual território uma identidade própria, inequivocamente estruturada em torno de uma língua e de uma cultura claramente distintas das dos outros povos eslavos. Mas, mais importante, um país de gente cujo ADN se define, por oposição ao da grande irmã eslava do Norte, por um amor extremo à liberdade, por uma insubmissão congénita perante a prepotência dos poderosos, que não lhe permite negociar a independência da pátria em troca de uma paz venenosa e castrante, cujo preço seria sempre a subjugação a um regime estrangeiro que celebra a obediência cega e o silêncio como valores de que o povo se não pode desobrigar.

Esta é, pois, a hora de Churchill, não a de Chamberlain. Ou deveria sê-lo, mas, hoje e sempre, os Chamberlain multiplicam-se, pois essa é a qualidade mais forte do que é medíocre, e os Churchill, esses, são raros na História, singulares, não se inventam – emergem em episódicas intersecções entre a linha imparável do tempo e determinados planos espaciais, onde a acção dos homens e os destinos da geografia convergem para os gerar – e, de momento, entre os estadistas do Ocidente, só um se vislumbra no horizonte, no seu flanco mais oriental: aquele que lidera o país que acaba de ser invadido pelo segundo mais poderoso exército do mundo…