Hoje (4) assinala-se o Dia Mundial do Cancro e por isso o “Campeão” conversou com a Dr.ª Margarida Ornelas, presidente do Conselho de Administração do Instituto Português de Oncologia de Coimbra, instituição que celebrou 60 anos, no dia 29 de Dezembro.
Campeão das Províncias [CP]: A Saúde sofreu algumas consequências com a pandemia nomeadamente nas referenciações e nas listas de espera, o IPO de Coimbra também foi afectado?
Margarida Ornelas [MO]: Mesmo, em 2020, no ano de maior criticidade da pandemia, o IPO de Coimbra obteve um bom desempenho, na generalidade dos indicadores de acesso, garantindo sempre uma boa gestão da capacidade assistencial, com algumas áreas, mesmo nesse ano, em que se registou um crescimento de actividade. Recorde-se que o IPO de Coimbra, reforçou, nesse período, no contexto da pandemia, a sua missão enquanto Instituto de referência da doença oncológica na Região Centro, dando resposta, a outros hospitais. A criação de um segundo Hospital de Dia com vista à resposta a doentes do Hospital Distrital da Figueira da Foz foi disso exemplo.
Nos últimos anos a referenciação, de facto, tem aumentado, registando-se um maior número de primeiras consultas, com uma variação, em 2022, face ao ano de 2021 de 7,8% e, face a 2019, ano pré-pandemia, de 20%. No último ano, conseguiu-se, também atingir, tal como nos anos anteriores, de forma plena, o acesso às consultas dentro do tempo máximo de resposta garantido.
No que diz respeito à actividade cirúrgica, também se assistiu a um crescimento, mesmo tendo o último ano sido fortemente marcado pela obra em curso no IPO, a qual provocou a redução da capacidade disponível de salas de bloco operatório e do número de camas de internamento. Apesar disso, fruto de uma reorganização interna e de várias acções levadas a cabo, tais como: reformulação de horários; gestão optimizada das salas de bloco operatório; reforço da cirurgia de ambulatório; actividade cirúrgica realizada externamente com profissionais do IPO; realização de maior volume de produção adicional, inclusivamente aos sábados, entre outras, o ano 2022 foi marcado por um aumento do número de doentes intervencionados e uma redução significativa da lista de espera cirúrgica – uma variação positiva de 7% (mais 343 doentes intervencionados) face ao ano anterior e uma redução da lista de espera cirúrgica de 4,7%. Também noutras áreas se registou uma evolução positiva: é o caso dos tratamentos realizados em hospital de dia, em que se assinalou um maior número comparando com o ano de 2021 (variação positiva de 2,2%). Nos tratamentos de radioterapia, outra área muito importante no tratamento da doença oncológica, registou-se, também, uma resposta muito positiva, com uma variação, face ao ano de 2021 de 18,6%, sendo, ainda, de registar o crescimento ao nível dos tratamentos complexos.
[CP]: Quais são os maiores desafios que o IPO enfrenta?
[MO]: Os desafios que enfrentamos são simultaneamente aqueles que têm constituído os três grandes pilares das nossas orientações estratégicas.
Desde logo: garantir o acesso, acesso a cuidados em tempo oportuno, no difícil contexto em que temos uma empreitada em curso, mas, também, o acesso à inovação, a novos medicamentos e à evolução tecnológica, sem descurar a sustentabilidade. Por outro lado, o IPO reconhece, também, como importante desafio, fomentar o papel de complementaridade e apoio entre as instituições da região centro com as quais se articula.
Em segundo lugar, os investimentos, com a execução de um exigente plano. Os últimos anos foram marcados por importantes investimentos, dos quais se destacam: a construção de um novo bloco operatório periférico; a instalação de 2 novos aceleradores lineares; a concretização do programa de eficiência energética no âmbito do Programa Operacional de Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos – POSEUR e a actual empreitada, em curso, de requalificação do edifício de cirurgia/imagiologia, correspondente à construção de um novo edifício que aumentará em 31,7% a área de prestação directa de cuidados de saúde e melhorará as condições para a prestação de cuidados.
Por último, mas não menos importante, o desafio de capacitar e motivar os nossos profissionais, garantindo a coesão interna e desenvolvendo acções para reter os melhores.
A terminar, acrescentaria, ainda, um quarto desafio: que a modernidade continue de mãos dadas com a humanização, algo que faz parte da nossa identidade “IPO”. Assistimos à concretização de uma grande obra e o futuro trará inovação, sofisticação e avanços tecnológicos. Esses avanços devem coincidir com o desafio de nos centrarmos cada vez mais nas pessoas: nos doentes (respostas que valorizem a sua experiência, a proximidade dos cuidados, o respeito integral pela pessoa e sua dignidade) e nos profissionais.
[CP]: Prevê-se que daqui a poucos anos metade da população tenha um cancro ao longo da vida. Há forma de contrariar isto?
[MO]: A palavra de ordem para contrariar isso é a prevenção. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a incidência global de cancro deve atingir patamares recorde nos próximos anos, apresentando uma evolução contínua. As neoplasias figuram já entre as principais causas de morte. Todos os anos, 3,5 milhões de pessoas na União Europeia são diagnosticadas com cancro e 1,3 milhões morrem da doença. No entanto, é importante mencionar que mais de 40% dos casos de cancro são evitáveis. Por este facto, é-nos exigido a todos uma atenção redobrada nomeadamente quanto aos hábitos de vida saudáveis e à detecção precoce.
[CP]: O Dia Mundial do Cancro serve para consciencializar a população para esta doença. Tem havido sensibilização suficiente?
[MO]: Neste domínio da consciencialização, a sensibilização nunca é demais. Um aspecto fulcral é o da promoção da literacia em saúde, em especial em grupos vulneráveis, visando reduzir as desigualdades. No IPO de Coimbra, temos procurado prosseguir este objectivo, já que esta é, também, a nossa missão. Um dos eixos que prosseguimos, nas nossas orientações estratégicas, é o da literacia em saúde, desenvolvendo várias acções: campanhas de sensibilização; materiais informativos; parcerias com entidades externas; iniciativas abertas à comunidade, todas em torno deste desiderato. O assinalar deste Dia, ou dos meses temáticos -– em cada mês do ano fazendo alusão a um tipo de cancro – são duas das iniciativas que temos levado a cabo. É importante comunicar, usando diversos meios, designadamente as redes sociais, o nosso site e entrevistas como esta. Por conseguinte, no que ao IPO de Coimbra concerne, procuraremos continuar a sensibilizar para esta temática, sendo que este será sempre um caminho inacabado, logicamente.
[CP]: Os rastreios vieram ajudar a combater a doença?
[MO]: Como é referido no Plano Europeu de Luta contra o Cancro a detecção precoce através do rastreio oferece a oportunidade de combater o cancro e salvar vidas. Também no IPO Coimbra se continua a dar resposta ao nível dos rastreios de base populacional na área da oncologia, designadamente no rastreio do colo do útero e do cólon e reto, tendo-se registado, no ano 2022, um aumento significativo face a 2021. No domínio da detecção precoce, os rastreios são fundamentais no combate à doença, sendo igualmente muito importante monitorizar e avaliar os programas de rastreio do cancro.
[CP]: De que forma as comemorações dos 60 anos do IPO reflectem a problemática do Cancro?
[MO]: As comemorações centram-se em 6 eixos: pessoas, comunidade, cuidado, memória, ciência e futuro sob o slogan “Construindo o presente entre o passado e o futuro”.
Trata-se de um marco muito importante para reflectir a problemática do cancro, já que estão previstas várias iniciativas, alicerçadas nestes eixos e abertas à comunidade hospitalar.
A este propósito, aproveito, para relembrar a nossa próxima iniciativa, que acontece já no dia 11 de Fevereiro: Dia Mundial do Doente. Neste dia será organizada uma caminhada, procurando sensibilizar para a importância do exercício físico, pelo que, desde já, convido todos os interessados a participar. Outra iniciativa que teremos proximamente e estará aberta a toda a comunidade será a Conferência “Oncologia, que futuro?”, no dia 18 de Maio.
Pelo percurso histórico que o IPO de Coimbra encerra, desde a concepção de Instituto destinado ao tratamento do cancro na região centro, segundo o desejo do seu fundador, até à concretização actual e projecção para futuro de um centro oncológico, em linha com os mais modernos centros de referência europeus, esta data é, também, uma oportunidade de afirmação da sua identidade e valores.