Regina Bento é administradora hospitalar no Hospital de Cantanhede, foi membro do Conselho Directivo da Administração Regional de Saúde do Centro e foi administradora dos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra. Foi vereadora na Câmara Municipal de Coimbra no mandato 2017-2021 e agora é vereadora da oposição (PS), na sequência das eleições realizadas a 26 de Setembro. Agora sem pelouros, já foi vogal do Conselho de Administração dos SMTUC – Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos.
Regina Bento lamenta as decisões despesistas do actual Executivo, nomeadamente com a criação de novos gabinetes sem nenhum trabalhador afecto e não poupa críticas à gestão municipal relativamente aos transportes, apontando para uma falta de coordenação.
Campeão das Províncias [CP]: Já recuperaram da morte de Carlos Cidade?
Regina Bento [RB]: O Carlos Cidade foi uma perda incontornável e difícil de superar. Várias vezes dou por mim a pensar “como ou o que ele faria”, é uma referência dada a experiência que tinha e que só o tempo vai ajudando a ultrapassar. Eu fui convidada, em 2017, para integrar a lista de Manuel Machado, não tenho uma carreira política, a única experiência que tive, a este nível, foi a autárquica e com a morte do Carlos Cidade dei por mim a ter que liderar a bancada do maior partido da oposição.
[CP]: Sendo independente, o partido tem-lhe dado liberdade nas tomadas de posição?
[RB]: Sim, muito mais do que estava à espera e do que até queria no início, porque quem não tem experiência política precisa de mais suporte e orientação. Tenho o cuidado de validar as minhas posições, nomeadamente aquelas mais assertivas e mais duras, agora com o novo presidente da Concelhia de Coimbra. Aceitei este desafio como um compromisso por Coimbra e se defendê-la passar por assumir posições firmes junto do Governo, pois assim será.
[CP]: Como é que está a ser este mandato?
[RB]: Não está a ser fácil porque de dia para dia vamos vendo a cidade a ficar pior. Fui vereadora durante quatro anos e custa ver os serviços a degradarem- se e as pessoas a terem a sua vida cada vez mais difícil. O nosso papel é denunciar o que está mal e tentar corrigir o rumo.
Eu acho que o actual Executivo não tinha noção do que é governar uma cidade e está a revelar níveis de impreparação que não estaríamos à espera. Quando estava na oposição, José Manuel Silva era muito determinado, assertivo e convicto de que conseguia mudar as coisas para muito melhor e neste momento o que está à vista é que não resolve, não faz, mantém um registo de desculpabilização permanente e vemos os serviços a degradarem-se de dia para dia. Estamos com 14 meses de governação, estamos a chegar a meio do mandato e as pessoas não querem desculpas, querem soluções. O tempo para fazer já chegou.
[CP]: O actual Executivo queixa-se da herança deixada pela governação anterior, tem razão?
[RB]: Claro que não tem razão. O actual presidente foi vereador da oposição durante quatro anos, portanto sabia exactamente ao que vinha. Estamos num momento de transição em termos de quadros comunitários, estamos a encerrar o 2020 e o 2030 ainda não arrancou, claro que faz diferença, mas isso não pode ser desculpa para culpar o Executivo anterior. Nós também tivemos de lidar com uma Pandemia.
[CP]: A vereadora criticou a reestruturação recente do executivo, porquê?
[RB]: Porque o Presidente afirma constantemente que estamos com um orçamento de guerra e depois apresenta uma estrutura que representa um custo acrescido de quase mais um milhão de euros por ano e nomeia chefes para gabinetes que não têm qualquer trabalhador afecto. Qualquer Executivo tem o direito de fazer a sua reestruturação orgânica e adaptar a estrutura da Câmara ao seu programa político. O que eu critico e não acho legitimo é fazê-lo de uma forma despesista. Não é fácil ter trabalhadores para tanto gabinete e tanta divisão, são 81 unidades orgânicas neste momento. Se estivesse num próximo Executivo do PS, naturalmente que iria cortar alguns gabinetes.
[CP]: Como é que vai resolver a questão dos transportes?
[RB]: Não sou eu que estou no governo da cidade. Claro que ninguém faz tudo bem, mas o PS fez um grande investimento nos SMTUC. Os autocarros neste momento não andam porque não têm sido mantidos. É inimaginável terem 75 autocarros imobilizados. Nestes 14 meses houve muita inacção. A frota não envelheceu radicalmente de um ano para o outro! Há vários factores que explicam este caos, desde logo, a clara impreparação do Executivo em diagnosticar os problemas, arranjar soluções e pôr as pessoas a trabalhar em equipa. Depois, a proposta de internalização gerou grande discussão, andámos meses a discutir isso e isso gerou uma enorme desmotivação dos trabalhadores, houve plenários todas as semanas, greves, isto tudo degrada os serviços. As pessoas em vez de estarem focadas no trabalho andam preocupadas com o seu futuro e com o futuro da instituição. Além disso, há mais de seis meses que os SMTUC estão sem chefe de divisão da manutenção. Este Executivo nomeia chefes para tudo e depois deixa estar uma divisão tão importante sem coordenação, porque a presidente do Conselho de Administração dos SMTUC não renovou a comissão do chefe da divisão e depois não conseguiu arranjar ninguém. A vereadora Ana Bastos garantiu que iria abrir concurso, o que não aconteceu, mas agora finalmente foi nomeado um chefe para a divisão de manutenção dos SMTUC. O caos que estamos a viver nos transportes é claramente consequência de falta de trabalho, de capacidade de implementar soluções e de incapacidade de coordenação por parte do Executivo.
[CP]: A compra dos autocarros no Barreiro foi uma decisão feliz?
[RB]: Isso foi uma decisão deste Executivo e eu não critico a compra de autocarros usados. O plano de renovação da frota terá de ser misto, dado o elevado custo dos autocarros eléctricos novos. O que eu não percebo é terem sido tão críticos do PS na aquisição de autocarros usados e depois fazerem exactamente o mesmo. O PS, nos oito anos que esteve no governo da cidade, fez um investimento de mais de 15 milhões de euros nos SMTUC, comprou 78 autocarros (novos e usados), o que dá uma média de quase dez por ano. Podia ter comprado mais, mas teria de deixar de investir noutras áreas.
[CP]: Acredita nos benefícios do Metro?
[RB]: Esta é uma fase difícil, mas acredito que o Metro vai revolucionar a cidade. É fundamental criar hábitos de utilização do transporte público. O processo do Metro tem sido incompreensível, mas agora já todos acreditamos que o processo é irreversível. Os transportes vão ajudar a manter por cá as pessoas, mas o problema da habitação não ajuda e nesta área o Executivo também pode fazer mais. Pode comprar casas, pode recuperar e pode colocar no mercado de arrendamento a preços controlados. Era preciso um programa muito focado neste âmbito, a habitação é absolutamente fundamental para fixar pessoas, nomeadamente jovens. Há dinheiro para isso, há 60 milhões para a estratégia da habitação.
[CP]: E em relação à integração do Hospital de Cantanhede no CHUC, vê isso como uma solução ou como uma ameaça?
[RB]: Cantanhede é um hospital de proximidade e isso é muito importante, temos uma população muito envelhecida. Estou expectante, tanto pode ser uma ameaça como uma oportunidade, depende da forma como for gerido o processo de integração. Cantanhede tem cerca de 20 consultas de diferentes especialidades, tem exames de diagnóstico e terapêutica, tem cirurgia de ambulatório, tem unidade de cuidados continuados, de convalescença, e paliativos. É um serviço que está à mão das pessoas. Há questões de estatuto jurídico, Cantanhede ainda é do sector administrativo do Estado e a ideia é que todos os Hospitais passem todos a ser EPE’s e para isso tem que ter alguma dimensão. As minhas reservas têm que ver com as experiências que conhecemos, nomeadamente, o caso do Hospital dos Covões. Tenho esperança que se aprenda com os erros e agora se faça melhor.
[CP]: Coimbra ganhou com estes 14 meses?
[RB]: Não. E não só não ganhou, como piorou. A cidade está toda em obras e o que é preciso é encontrar soluções. O presidente não pode continuar a atacar a oposição, em todos os lados, sobretudo nas redes sociais, numa postura completamente defensiva, apesar de ser uma estratégia de comunicação para desviar atenções das suas próprias incapacidades e responsabilidades. Mas a verdade é que passaram 14 meses e se José Manuel Silva conseguir fazer alguma obra vai ser o Muro das Lamentações de Coimbra.
Lino Vinhal / Joana Alvim