João Gouveia Monteiro é professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (UC). Entre as suas publicações mais recentes incluem-se as obras “Nuno Álvares Pereira, guerreiro, senhor feudal e santo. Os três rostos do Condestável” e “História Medieval de Portugal” (com António Resende de Oliveira). Ocupa-se actualmente do estudo da história das tradições religiosas mundiais, tendo dirigido a obra “História concisa das grandes religiões”. É, desde 2019, o director da Biblioteca Geral da UC (BGUC) e integra o actual Conselho Geral da Universidade, onde coordena a Comissão de Cultura, Património, Cidadania e Desporto.
Campeão das Províncias [CP]: Tem sob a sua responsabilidade um dos maiores tesouros de Coimbra. O que temos na Biblioteca Geral da UC?
João Gouveia Monteiro [JGM]: Eu penso que ninguém saberia dizer ao certo quantos títulos temos, mas calcula-se que sejam cerca de dois milhões. Temos um imenso tesouro à nossa guarda. Somos depósito legal, uma das poucas bibliotecas nacionais que têm esse estatuto, o que significa que recebemos tudo aquilo que se publica em Portugal e, depois, temos de cuidar também da parte patrimonial, sobretudo da Biblioteca Joanina.
[CP]: Está tudo à sua guarda?
[JGM]: Sim, no caso da Biblioteca Joanina trata-se de uma tutela partilhada com o Senhor Reitor, que superintende a divisão de Turismo.
[CP]: Qual é o livro mais antigo que lá está?
[JGM]: O nosso livro mais antigo é uma Bíblia. É a chamada Bíblia Atlântica, porque é um livro de grandes proporções, que só poderia ser carregado pelo gigante Atlantes, uma figura mitológica que foi castigada por Zeus, que o condenou a carregar a abóbada celeste às costas. Só ele teria força para transportar um livro daquele tamanho! É uma Bíblia do século XII, do tempo da fundação da nacionalidade portuguesa. Temos também uma primeira edição dos Lusíadas, uma primeira edição da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, uma Bíblia hebraica dos finais do século XV e que se pensa que pertenceu à família de Isaac Abravanel, que foi uma figura importante da Península Ibérica na 2.ª metade do século XV. Temos também grandes obras de medicina (como a de Andreas Vesalius, considerado «o pai da anatomia moderna»), grandes obras de botânica (como o «Livro das Ervas» de Pietro Mattioli), os desenhos de Giovanni Battista Piranesi, que no século XVIII desenhou monumentos romanos com um pormenor extraordinário, entre muitas outras… Na Biblioteca Joanina, só no piso nobre temos cerca de 1.200 metros lineares de estantes e quase 30.000 livros. Todos os anos, a chegada do depósito legal ao edifício da BGUC engole, só por si, mais de 200 metros lineares de estantes, portanto, o nosso problema não é falta de livros, é a falta de espaço para os acolher e daí a necessidade de ter que se começar a pensar seriamente na construção de um edifício de raiz para acolher uma biblioteca como esta.
[CP]: Essa hipótese está em cima da mesa?
[JGM]: Era o Professor Carlos Fiolhais director da BGUC e já se falava nisso, havia o projecto de a deslocalização do Estabelecimento Prisional de Coimbra poder abrir espaço para equipamentos culturais nessa zona nobre e muito próxima da universidade. Mas seja reactivando esse projecto, seja concebido outro, é importante perceber que dentro de não muitos anos estaremos completamente esgotados.
[CP]: Qual é a missão da BGUC?
[JGM]: A nossa missão é, por um lado, de serviço público de apoio ao estudo, por outro de boa gestão e classificação do nosso espólio e de preservação do património à nossa guarda. A BGUC coordena o repositório «Estudo Geral», onde se reúnem todas as dissertações de mestrado e doutoramento produzidas na UC; coordena também o serviço de apoio a todas as bibliotecas da Universidade, através da Área de Serviços e Sistemas de Gestão Integrada das Bibliotecas da UC (ex-SIBUC). Mas há ainda um terceiro pilar, que passa pela dinamização da actividade cultural. Uma biblioteca não é um depósito de livros, é um centro de conhecimento vivo, que precisa de ser partilhado. Vamos fechar o ano de 2022 com mais de 40 iniciativas realizadas, ao longo de 60 sessões. Na nossa programação cultural, temos três eixos aos quais temos procurado manter-nos fiéis; a difusão do livro e da leitura, em especial entre os jovens; a promoção do diálogo intercultural e inter-religioso, e criámos para isso, em 2020, a Academia para o Encontro de Culturas e Religiões da UC (APECER-UC); e a sensibilização para a educação ecológica, isto é, a formação na área da protecção da Natureza.
[CP]: A propósito desses três eixos, está a decorrer o colóquio Religião e Alimentação, quais são as expectativas?
[JGM]: São boas. É uma iniciativa muito fora do vulgar. A maioria das pessoas tem um compromisso religioso, mas tem também curiosidade pelas tradições gastronómicas. A religião é uma parte importante da expressão cultural dos povos. No caso do Judaísmo, essa relação é evidente na alimentação kasher, que é a dieta que cumpre as regras descritas no Torá. Os Hindus, pelo seu lado, na sua «lei» («Sanâtana Dharma») defendem que o divino está presente em todas as criaturas e que por isso não se deve fazer mal a nenhuma delas, daí serem vegetarianos. Já no caso dos Budistas (que, contrariamente ao que se pensa, não são necessariamente vegetarianos), eles também têm as suas normas, que estão prescritas nos Sermões de Sidhârta Gautama. É isso que vamos apresentar neste colóquio, as regras e os princípios alimentares das diferentes religiões. Mas vamos também apreciar alguns dos seus sabores, pois quisemos que esta não fosse uma iniciativa meramente teórica! Por isso, para além das tertúlias, vamos ter também provas gastronómicas, numa iniciativa que é feita em parceria com o Instituto Universitário Justiça e Paz e também com o Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da nossa Faculdade de Letras (a que pertence a coordenadora científica do evento, a Prof.ª Paula Barata Dias).
[CP]: A iniciativa “Bibliotecas Icónicas da Humanidade” correu bem?
[JGM]: Correu muito bem! Foi a nossa iniciativa mais importante de 2022. Reunimos directores e altos quadros de bibliotecas históricas de várias épocas e tipologias. Foi deslumbrante, os conferencistas prepararam apresentações de enorme qualidade e proporcionaram uma reflexão inédita sobre algumas das livrarias mais emblemáticas da história da humanidade de três continentes diferentes. Tivemos a conferência de encerramento pelo Dr. Alberto Manguel, que foi director da Biblioteca de Buenos Aires e que trabalhou directamente com o escritor argentino Jorge Luís Borges, a quem prestou, aliás, homenagem no final da sua apresentação. O evento serviu para conhecer o passado, o presente e o futuro de cada uma daquelas bibliotecas e espero que possa gerar um intercâmbio entre os respectivos bibliotecários. Hoje em dia estamos todos à distância de um clique, também por isso criámos, há já vários anos, a biblioteca digital «Alma Mater», que reúne imagens e metadados sobre um grande número de obras, não apenas da BG e Joanina, mas de toda a UC.
[CP]: A Biblioteca Joanina, como é que ela está?
[JGM]: Está neste momento sob um programa de protecção patrimonial. O Senhor Reitor apontou para Janeiro o arranque da obra de requalificação integral da cobertura, das fachadas e do próprio quadro eléctrico, creio que se aguarda apenas o visto final do Tribunal de Contas. Isto é fundamental que aconteça e eu acrescento que deve ser combinado com um reordenamento do fluxo turístico. Cerca de 1700 pessoas por dia impede as condições ideais de preservação do património bibliográfico, artístico e mobiliário que ali temos. Nós queremos os turistas, precisamos deles, temos orgulho em exibir o nosso património, mas dizemos que isso tem de ser feito dentro de uma lógica de sustentabilidade. E, felizmente, a Reitoria pensa da mesma forma. Há muitas medidas que podem ser estudadas com este objectivo. Por exemplo, eu defendo que a entrada para a Biblioteca Joanina tenha um bilhete separado do resto do circuito turístico e que seja mais caro do que é hoje.
[CP]: Está prevista outra iniciativa “Portugal 50 anos (1973-2023)”, do que se trata?
[JGM]: É uma forma de assinalar os 50 anos do 25 de Abril, uma homenagem onde vamos recordar as grandes transformações que ocorreram no país ao longo destes anos. A programação vai decorrer de Janeiro a Julho de 2023, temos já programados sete debates, um por mês, sempre à quinta-feira, cada um com dois convidados. O primeiro vai ser no dia 5 de Janeiro, com Eduardo Anselmo de Castro, professor da Universidade de Aveiro e vice-presidente da CCDRC, e com o Pof. Diogo de Abreu, geógrafo conceituado de Lisboa e que tem também estudado as questões do reordenamento do território. Este primeiro debate vai ser sobre o que nos diz a demografia sobre o nosso país, e sobre o que deve ser um ordenamento harmonioso do território nacional.
[CP]: E como é que se pode acompanhar a actividade da BGUC?
[JGM]: Tudo o que nós fazemos está na nossa página web, temos também uma Liga de Amigos (a LIBUC) que garante aos seus associados uma informação privilegiada: eles são os primeiros a ser informados e convidados para os nossos eventos. A quota anual desta liga é quase simbólica e é a forma mais fácil de se estar sempre a par das nossas iniciativas.
[CP]: Escreveu um livro sobre Nuno Alvares Pereira…
[JGM]: Foi uma viagem muito interessante escrever esta biografia. É uma figura polifacetada, simultaneamente guerreiro, senhor feudal e que tem também uma importante faceta religiosa. Cumpriu os últimos anos da sua vida no mosteiro que ele próprio fundou em Lisboa e que, mesmo em ruínas, ainda nos impressiona pela sua monumentalidade – o Mosteiro do Carmo. Num país que tinha não mais que seis títulos de nobreza, ele tinha os três mais preciosos nas suas mãos, era claramente o homem mais rico de Portugal. Ele acabou, de certo modo, por expiar os seus pecados com as doações espirituais que fez no final da sua vida. Estudei durante muito tempo a história de Nuno Alvares Pereira, mas mesmo assim fui surpreendido nesta parte religiosa, ao perceber a enorme influência que os eremitas exerceram sobre a sua consciência religiosa.
[CP]: Como hobbies, cultiva o estudo da música e das línguas.
[JGM]: Aprendi a tocar piano em miúdo, mas só em 2012 regressei a essa paixão, que cultivo diariamente. Tento passar o amor pela música aos meus descendentes, o meu filho mais velho é um excelente guitarrista de Bossa Nova e o meu neto Afonso, que tem 9 anos, está no segundo ano do Conservatório de Lagos e vai ser, penso eu, um bom violencista. As línguas clássicas surgiram também por necessidade: o latim, assim que fui contratado como assistente da Faculdade de Letras, para trabalhar na Idade Média; e o grego, porque quis alargar os meus horizontes na direcção do estudo da história do mundo bizantino, que é um Império de língua grega.
Luís Santos / Joana Alvim