Paulo Leitão é presidente da Distrital de Coimbra do PSD e, nos anos que leva no cargo, já viveu períodos de dificuldade reconhecida. É natural de Coimbra mas na sua meninice andou entre Coimbra e Moçambique, acabando por fazer aqui a sua carreira estudantil. Licenciou-se em Engenharia Civil e é neste momento quadro superior da Águas do Centro Litoral. Foi vereador e deputado e fez todo o seu trajecto político nas estruturas, juvenis e seniores, do PSD de Coimbra. Os problemas estruturantes do PSD, a área metropolitana de Coimbra e uma possível reintrodução de Nuno Freitas foram alguns dos assuntos debatidos em Entrevista de há dias à Rádio Regional do Centro e ao “Campeão das Províncias”.
Campeão das Províncias [CP]: Assumiu a liderança de um partido estruturante na democracia portuguesa. Tem andado de “brasa para brasa”?
Paulo Leitão [PL]: Relativamente ao momento político estou no segundo de três mandatos na comissão política distrital que é o limite máximo. Isto é algo que discordo, porque penso que deveriam ser quatro para fazer no mínimo os dois ciclos autárquicos, porque os mandatos são de dois anos. Como o primeiro mandato terminou este ciclo autárquico, no meu caso, enquanto líder da distrital de Coimbra, terminarei os três mandatos exactamente a seguir às próximas eleições autárquicas. Para mim foi um desafio. Acho que nos devemos bater por desafios difíceis e na altura, se nos recordarmos, o PSD só liderava cinco das Câmaras do distrito.
[CP]: Pouco antes de entrar para o PSD começaram as dificuldades. Foi mudança de geração, esgotamento do PSD ou descida de acreditação?
[PL]: Penso que teve a ver com a conjugação de dois aspectos distintos. Em 2001 e 2005 o PSD conquistou no distrito,12 e 11 Câmaras respectivamente. Em 2009 já teve algumas quebras neste resultado e depois aconteceram as fatídicas eleições de 2013. O ano de 2013 conjuga dois factores: estávamos em pleno período da Troika e foram as primeiras eleições em que foi aplicada a limitação de mandatos aos presidentes. Portanto, se já favorecia pela limitação de mandatos uma alteração do ciclo político, a situação gravíssima que o país na altura atravessava, fez-nos pagar por isso. Mesmo assim, Passos Coelho não geriu o país em função das eleições e não se inibiu de adoptar as medidas a que estava obrigado.
[CP]: Têm-se filiado menos pessoas nas diversas forças políticas nos últimos anos. Porquê?
[PL]: Aí tem a ver com uma descredibilização da política e dos actores políticos. É um facto que temos dificuldades em arranjar candidatos. A legislação veio a ter uma malha tão apertada que põe em causa quem prevarica e quem não prevarica e isso tem a ver com o caminho que a sociedade tem feito de descrédito, às vezes injustificado, dos cargos políticos. Com o acréscimo dos problemas que advêm destes cargos torna-se um factor que leva as pessoas a afastarem-se da vida política. Actualmente a política não tem atraído quadros o que é mau para a sociedade.
[CP]: O PSD vai conseguir recuperar em Coimbra com a fórmula encontrada nas últimas eleições autárquicas, recorrendo a uma coligação alargada?
[PL]: Em Coimbra melhorámos de forma considerável o resultado nas últimas autárquicas. Quanto à fórmula, e uma vez que acompanhei o processo por dentro, eu diria que é igual. Não vejo ninguém a pôr em causa Penacova, Góis e os restantes municípios presididos pelo PSD. O único facto que não existiu nesses concelhos foi a coligação. Mas isso faz parte do jogo democrático. Poderia não ter existido qualquer novidade, se o líder do partido não tivesse interferido na sequência da proposta que houve da comissão política de secção, para José Manuel Silva encabeçar e ir o Nuno Freitas em segundo, em que a única diferença é que não existia coligação com o partido Nós Cidadãos. As personalidades independentes teriam sido indicadas pelo PSD com inclusão dos normais parceiros de coligação. Isso resultou da forma atabalhoada como Rui Rio geriu o processo, atingindo, no entanto, um fim semelhante. O PSD tem sempre é que apresentar bons candidatos e bons projectos, porque se não o fizer está condenado a não governar Coimbra.
[CP]: Este ano de mandato está a corresponder às expectativas?
[PL]: Sim. No Executivo que entrou, penso que nenhum dos vereadores teve experiências de pelouros atribuídos em anteriores de Executivos. São todos gente nova, e isso tem aspectos positivos, pois vêm com novas ideias e novas formas de encarar os problemas, mas também têm aquela curva de aprendizagem no primeiro ano em que não se pode estar à espera que resolvam logo tudo. Eu acho que Coimbra perde é com a postura que a Oposição tem tido porque temos assistido a uma teoria do “deita abaixo” sem pensar que, por vezes e para determinados dossiers importantes para Coimbra, é necessário convergir.
[CP]: Antes de sair da Comissão Política Distrital vai atrair de novo Nuno Freitas para a disponibilidade partidária?
[PL]: Eu tenho de elogiar a postura que ele teve porque, depois de ter estendido a mão ao José Manuel Silva, ficou sem resposta a nível nacional e teve que avançar com a sua candidatura. Aquilo que foi feito foi tentar, por todas as formas e feitios, afastar o Nuno Freitas do processo. Eu e ele sempre trocámos opiniões e na altura disse-lhe que temia que o desfecho ia acabar por acontecer e aconteceu. Ele é um quadro político para o futuro de Coimbra, ou de outros patamares, e é um homem de Coimbra que tem valor para mudar a cidade e o país. Até nisso, mais uma vez, ele teve um comportamento exemplar, porque podia ter tido um comportamento que prejudicasse a candidatura resultante e, em vez disso, até contribuiu muito para o resultado que tivemos. O afastamento dele teve a ver com a forma como foi tratado pela comissão política nacional. Por isso é que o Dr. Rui Rio não conseguiu chegar a lado nenhum, pois era um líder pequenino e porque em vez de querer ganhar a Câmara de Coimbra com os melhores quadros, andava nesta disputa de afastar do processo quem ele não gostava dentro do PSD.
[CP]: Por que é que Coimbra não consegue criar uma cultura maioritária para se defender da macrocefalia lisboeta?
[PL]: Esta questão depende sempre de quem está a liderar os destinos da autarquia e também da inteligência da oposição, quando é necessário, consensualizar um conjunto de dossiers. Na oposição soubemos dar a mão ao PS, como foi exemplo na viabilização da solução do Metrobus. Neste mandato tivemos a questão da internalização dos SMTUC e é de perguntar ao PS qual é a solução de mobilidade que tem para Coimbra e sua envolvente. Acho que quando pensamos numa solução desta natureza, devíamos pensar num serviço público que, para além de servir Coimbra, também tenha capacidade de servir, no mínimo, os concelhos vizinhos. É importante que o PS também contribua na definição das grandes opções estratégicas para Coimbra.
[CP]: Como qualifica o desempenho da eurodeputada Lídia Pereira?
[PL]: Tem tido um excelente mandato e é o exemplo de que uma aposta de risco, por ser jovem, pode ser bem sucedida. Isso permite-lhe poder vir a ser uma das embaixadoras da região centro.
[CP]: É um futuro quadro do PSD pela Europa e pelo mundo ou é alguma reserva no sentido de um dia vir fazer uma “perninha” a Coimbra?
[PL]: Não consigo prever isso, mas penso que tem qualidades para poder fazer os dois caminhos. Mas se ela viesse um dia fazer uma perninha a Coimbra, eu veria isso com bons olhos tal como vi na altura em que foi candidata para a Assembleia Municipal.
[CP]: E deputados? Têm tido uma representação satisfatória na Assembleia da República e Parlamento Europeu?
[PL]: A Fátima Ramos e a Mónica Quintela já tinham experiência de outros mandatos, o Barbosa de Melo foi presidente da CMC e também é um político com experiência. Potencial e experiência têm-no, mas o mandato para já é muito curto. O Álvaro Amaro tem tido um impacto considerável pois, na minha acção política, tenho várias reuniões com agricultores e cooperativas e acompanho bem o seu trabalho numa área onde já foi Secretário de Estado.
[CP]: O PSD de Coimbra está com Luis Montenegro depois dos fraccionamentos de há anos atrás??
[PL]: Em directas todos os militantes têm liberdade de tomar as opções que entendem. Relativamente ao histórico, eu posso falar das posições que assumi. Quando foram as primeiras eleições de Rui Rio fui o mandatário distrital da sua candidatura. Posteriormente, enquanto presidente da Distrital, não apreciei a sua forma de actuar e entendi que por aquele caminho o PSD nunca ia lá chegar. E o tempo veio a dar-me razão. O resultado expressivo das últimas eleições demonstra a união do distrito em torno da liderança de Luís Montenegro.
[CP]: Santana Lopes foi desafiado para ir para a Figueira da Foz no primeiro mandato e voltou agora noutras roupagens partidárias. Vai fazer alguma coisa para o cativar de novo para o PSD?
[PL]: Para mim ele é um homem do PSD. Mas também aqui houve um processo mal gerido pela anterior comissão política nacional, pois ele nunca escondeu que a voltar seria para a Figueira. Poderia ter sido mais uma Câmara liderada pelo PSD, e a Distrital que eu lidero o que tem em mente é fazer o caminho para que isso seja possível.
[CP]: Uma área metropolitana de Coimbra motiva-vos?
[PL]: Motiva. Coimbra se tiver uma forma pró-activa de receber os empresários e investidores, com o resultante acréscimo de oferta de emprego e, com a qualidade de vida que tem, arrisco-me a dizer que seria uma das zonas mais atractivas do país. Nisto há uma mudança radical de comportamento do actual presidente da CMC, José Manuel Silva, o que apesar de ser um caminho que demora tempo a dar resultados, ele tem prosseguido de forma exemplar.
[CP]: A nível da nova fórmula hospitalar dos Covões e da organização na área da saúde era bom que estivessem de acordo as forças políticas de Coimbra, não?
[PL]: Era bom porque Coimbra tem uma grande capacidade médica instalada. Nós temos de nos diferenciar para captar potenciais utentes de outras regiões, porque se continuarmos a perder população e estando as outras cidades do país a ganhar esta capacidade instalada, o caminho que se adivinha é que cada vez mais venhamos a perder valências nesta área.
Lino Vinhal / Rogério Oliveira