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ENTREVISTA: Marta Temido confiante nos Covões como componente de ambulatório

15 de Outubro 2022 Jornal Campeão: ENTREVISTA: Marta Temido confiante nos Covões como componente de ambulatório

Nasceu em Coimbra, mas com um mês de idade já estava em Arganil, passou por Viseu, regressou a Coimbra, deu um salto até Castelo Branco e voltou à cidade natal onde terminou o ensino básico, o secundário e onde se licenciou, depois, em Direito. Uma vida nómada, resultado das profissões do pai (magistrado) e da mãe (professora). Especializou-se em Administração Hospitalar em Lisboa, mas foi nos Hospitais da Universidade de Coimbra que, em 2000, começou a trabalhar. Em 2004 ingressou no mestrado em Gestão e Economia da Saúde na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, doutorando-se em Saúde Internacional pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa. Em Outubro de 2018 assumiu o cargo de ministra da Saúde, do qual se demitiu há pouco mais de um mês. No final de 2019 foi eleita cabeça-de-lista do PS pelo círculo eleitoral de Coimbra, função que reassumiu agora. A pandemia, o SNS, a carreira dos médicos e os Covões foram, naturalmente, os assuntos focados em Entrevista à Rádio Regional do Centro e ao “Campeão”.

Campeão das Províncias [CP]: Como se sente?
Marta Temido [MT]: Foram anos muito exigentes. Não fazia ideia do nível de complexidade e exigência das funções de governação. Agora, sempre que olho para a bancada do Governo penso: há, de facto, um sentimento de consideração e respeito que devemos ter por quem aceita servir o país. Depois acontece a pandemia, uma circunstância excepcional, devastadora e difícil de enfrentar e o sector da saúde é, por si só, muito complicado. Fui, no entanto, muito feliz
enquanto assumi funções no Ministério da Saúde e tive uma equipa extraordinária, unida, leal e conhecedora dos assuntos. Muitas das pessoas que estiveram comigo era a primeira vez que trabalhavam num Ministério e no fundo éramos todos, de alguma forma, aprendizes na política. Ter uma preparação técnica é importante, mas eu hoje sei bem que não chega. Há coisas que não vêm nos livros: um pensamento político; alguns aspectos formais; pensamento mais
estratégico, aspectos que fomos desenvolvendo ao longo do percurso.

[CP]: Chegou a passar-lhe pela cabeça, mais no início da pandemia, vir embora?
[MT]:
Cheguei a pensar que, se sobrevivesse a alguns momentos, no dia a seguir ia embora. Depois, afinal, não fui. Há momentos da resposta à pandemia que nunca esquecerei: ninguém imagina o que é estar no Ministério, já tarde, a cidade rodeada de silêncio, e ouvir ambulâncias sempre a passar sabendo das dificuldades que estavam a existir. Os que mais sofreram, sem dúvida, foram os profissionais de saúde que estiveram na linha da frente. Devemos sentir um grande orgulho pela forma como os profissionais de saúde e de serviços de apoio lidaram com esta pandemia. O grande sucesso do nosso combate à pandemia foi não haver divisões ou divergências, havia, sim, união.

[CP]: Sente que o primeiro-ministro foi solidário consigo enquanto ministra?
[MT]: Como disse, as funções no Governo são muito exigentes e são-no para todos, inclusive para o primeiro-ministro. Há que sentir solidariedade e sempre a senti do primeiro-ministro, mas ninguém deve esperar que o primeiro-ministro ande com os ministros ao colo. A função dos ministros é ajudar e proteger o primeiro-ministro e a função deste é proteger a população. É esta relação de lealdade e hierarquia que, para quem está de fora, é, por vezes, difícil de compreender. Quem vem para a política tem de estar ao serviço e isto significa estar disponível e prescindir de muita coisa, excepto dos nossos princípios.

[CP]: A certa altura o SNS começou a abrir algumas brechas e estas foram, muitas vezes, importadas à ministra da Saúde e não ao sistema…
[MT]: Há questões que se reflectem no funcionamento dos serviços públicos e que têm a ver com questões orçamentais. Nós, que pensamos nestes temas há muito tempo, sabemos que questões relacionadas com recursos, mas há outra relacionadas com organização. Quando salta à vista a fragilidade dos recursos há que reconhecer que estes são sempre limitados. Os membros do Governo também têm de ter solidariedade uns com os outros e perceber até as dificuldades sectoriais de outras áreas. Quando nós dizemos que é preciso mais dinheiro para a saúde, há que pensar que muitas outras áreas poderiam dizer o mesmo.

[CP]: O SNS para funcionar bem devia ter mais recursos e daqui poderá depender o seu futuro?
[MT]: O maior problema do SNS é o dos profissionais de saúde. Há questões de remuneração que estão na base de muitas reivindicações e das fugas do sector público para o privado. Penso que é um trabalho que está em curso, que procurámos
iniciar e que agora deverá ser continuado ao olhar outra vez para a organização das carreiras. O nosso SNS costuma ser avaliado como um serviço eficiente e os resultados são bons. A questão é que temos cada vez mais uma população envelhecida, que tem depois um conjunto de necessidades e, portanto, consomem mais cuidados, sendo frequente, que a partir de certa idade, tenham mais necessidades de cuidados de saúde, sobretudo doentes com patologia crónica.

[CP]: A fórmula de entregar a gestão do SNS à Direcção Executiva vai tirar algum peso ao Ministério da Saúde?
[MT]: Sobretudo, acredito que vai conferir maior independência à gestão do SNS. Vai colocar a pressão política onde ela tem de estar – no Ministério da Saúde – e a questão técnica na Direcção Executiva. Tem de haver tensão entre estas duas vertentes e esta corre melhor quando há duas entidades capazes de fazer dessa tensão uma tensão positiva. Agora, não há soluções milagrosas. A Direcção Executiva é um passo no sentido correcto, que é o da autonomização destas duas vertentes: política e técnica. Também é importante olhar para a vertente da prevenção…

[CP]: … nesse ponto ainda não assentámos numa estratégia para o país todo, pois não?
[MT]: Talvez por isso exista agora uma Secretaria de Estado focada na prevenção, preocupada em ter uma abordagem sistemática dessas vertentes que são, de facto, latas. Ao falar de prevenção tanto podemos estar a falar de cuidados como a vacinação ou da educação para a saúde nas escolas, ou da saúde mental. A prevenção é algo que, libertando o Ministério da Saúde de problemas da gestão directa dos serviços, poderá ter maior atenção política agora. Estamos a assistir a mudanças, mas é necessário dar tempo para que as alterações legais produzam resultados.

[CP]: Há ou não há falta de médicos no país?
[MT]: É um facto que somos um dos países da OCDE com maior número de médicos por habitante. A questão é que esse número corresponde ao número de inscritos na Ordem dos Médicos, mas há muitos inscritos que já não exercem. Compreendo que algumas pessoas digam que não é uma questão da falta de médicos mas de atractividade, e de alguma forma se tivéssemos os médicos todos a trabalhar não havia este problema, mas a Administração Pública tem regras; por exemplo, a saída aos 70 anos. É uma grande mais-valia manter os seniores a aconselhar, isso tem um valor incalculável e a sua saída automática deixa uma mágoa mútua e é um prejuízo colectivo.

[CP]: Ministra ou deputada?
[MT]: Estar deputada é uma experiência nova e falta-me essa escola política, estou a ficar com uma visão mais completa. Quando deixei de ser ministra da Saúde ponderei se iria assumir o papel de deputada ou se voltaria para o IPO do Porto, onde estou afecta, e achei que não seria correcto, para com quem acreditou em mim, sair.

[CP]: O caminho que foi dado aos Covões foi o mais correcto?
[MT]: Não sei se foi, mas a pergunta é: aqui chegados como melhorar? Eu tenho relações afectivas com os Covões, recordações de dias muito bons e de muito trabalho. Toda a história desta estrutura vinha do conceito de “hospital cidade”, em oposição ao ”hospital escola”, mais distante. O Hospital dos Covões será sempre associado ao humanismo e proximidade. Outra questão é: como é que se faz caminhar o Hospital dos Covões para servir os portugueses em 2050 sem perder a sua “imagem de marca”? Acho que passa por orientá-lo para a componente de ambulatório, que é o que a maioria de nós, ao longo da vida, mais necessita. Porque a maioria dos cuidados de que hoje as pessoas necessitam são diferentes e podem ser prestados de outra forma – recordo a hospitalização domiciliária.

Lino Vinhal / Nádia Moura

»» [Entrevista da edição impressa do “Campeão” de 13/10/2022]