Foram descobertos no final do ano passado, num sótão, desenhos inéditos do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra (UC), abrangendo um período de 200 anos, e que são revelados, a partir desta terça-feira (4), num catálogo digital.
Este, em formato e-book, produzido pelo Departamento de Ciências da Vida (DCV) da Faculdade de Ciências e Tecnologia disponibiliza a colecção de 40 desenhos, 35 dos quais inéditos, que mostram um novo olhar sobre o processo de construção do Jardim Botânico, no ano em que se celebram os 250 anos da reforma pombalina da UC.
“Vários rolos mal-acondicionados e com muito pó, dispostos em prateleiras no extremo do depósito da biblioteca de botânica (no sótão do edifício de S. Bento), chamaram a nossa atenção. Desenrolados com todo o cuidado, foram revelando, um após outro e perante a nossa surpresa e alegria, desenhos para nós desconhecidos e de notória antiguidade”, contou a responsável pelo arquivo do DCV, Ana Margarida Dias da Silva. Segundo disse, depois de uma limpeza superficial, “um olhar mais atento revelou plantas do Jardim Botânico, bem como plantas e alçados de muros, escadarias, gradeamentos e estufas”.
“Intuímos do seu interesse, mas era urgente investigar datas, autorias, descobrir como tinham ido ali parar e, acima de tudo, se eram, realmente, inéditos”, recordou.
A consulta às obras de referência sobre o Jardim Botânico e sobre a reforma pombalina da Universidade de Coimbra levou a concluir que, “além dos cinco desenhos do Jardim Botânico pertencentes ao DCV e já conhecidos, não existia nenhuma referência aos desenhos descobertos”.
Ana Margarida Dias da Silva explicou que a colecção agora tornada pública, que conta com nomes como Macomboa, José do Couto, Neves e Mello e Cottinelli Telmo, mostra “as soluções arquitectónicas projectadas e as realizadas, no diálogo entre as componentes artística e científica”.
O objectivo é o de que a colecção “contribua para o melhor conhecimento e novas leituras sobre o que foi idealizado e/ou projectado, o que foi aprovado e o que foi, efectivamente, construído”, moldando o Jardim Botânico como hoje é conhecido: “simultaneamente espaço de ciência, colecção biológica e um espaço emblemático da universidade e da cidade de Coimbra”.
Os desenhos descobertos terão sido “documentos de trabalho com anotações a lápis, que mostram hesitações e alterações” e que ficavam guardados na “gaveta do jardineiro”.
Segundo a especialista, “alguns desses desenhos avulsos são reveladores de projectos nunca concretizados ou muito modificados na sua execução”, sendo que “o carácter utilitário destas peças desenhadas poderia ter ditado a sua eliminação, finda a concretização da obra ou a rejeição do projecto”.
O director do DCV, Miguel Pardal, disse que, atendendo ao “valor e importância da colecção”, foi assumido, “desde o primeiro momento, o financiamento do restauro e da digitalização dos desenhos, de forma a garantir a sua preservação e disponibilização para estudos futuros”.
O “Catálogo dos desenhos do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra. Colecção do Departamento de Ciências da Vida (séculos XVIII a XX)” reúne todos os desenhos pertencentes ao DCV, incluindo os cinco já conhecidos e os 35 inéditos. Trata-se de três desenhos do século XVIII, 27 do século XIX e 10 do século XX.
As autoras da obra, Ana Margarida Dias da Silva e Maria Teresa Gonçalves, também pretendem disponibilizar online, em acesso aberto, fontes iconográficas essenciais para o estudo da construção e das soluções arquitectónicas escolhidas para o Jardim Botânico.