Na sexta-feira (16), 31 jovens “foram” à Lua e a Marte, de avião, com partida e chegada de e a Beja. Tratou-se do primeiro voo parabólico feito em Portugal, o único meio na Terra capaz de reproduzir o efeito da ausência de gravidade ou microgravidade, apenas sentida pelos astronautas no Espaço. Os jovens, estudantes entre os 14 e os 18 anos, foram seleccionados num concurso que recebeu 460 candidaturas a nível nacional, num processo de selecção dividido em várias fases que incluiu testes físicos, de percepção e interpretação do Espaço. Tudo isto no âmbito da iniciativa “Zero-G Portugal – Astronauta por um Dia”, promovido pela Agência Espacial Portuguesa, que visa motivar o interesse dos mais novos pelo Espaço. De Coimbra, a Sofia Maia e o Miguel Fernandes viveram, com apenas 17 anos, a experiência com que muitos podem apenas sonhar.

Candidataram-se, a nível nacional, 460 jovens. Na primeira fase foram seleccionados 250 e as fases seguintes eram eliminatórias. Da prova de lógica e interpretação do espaço sobraram 125, de seguida, da prova física, ficaram 60 e, na fase final, a de entrevista, foram seleccionados os 30 jovens que fariam o voo parabólico (que, depois, foram 31 por ter surgido mais uma vaga). O avião, um Airbus A310, fretado pela Agência Espacial Portuguesa Portugal Space – que organizou a iniciativa – à empresa francesa Novespace, descolou da Base Aérea de Beja cerca das 10h00 e aterrou pelas 12h00.
Lá dentro os 31 jovens mas também dois astronautas: o alemão Matthias Maurer – que já esteve no espaço, na Estação Espacial Internacional, durante seis meses com vista para a Terra – e o francês Jean-François, ex-astronauta que fundou e preside à Novespace. O avião sobrevoou a costa portuguesa e executou manobras de ascensão e queda-livre – um total de 15 parábolas – numa zona do espaço aéreo fechada a outros voos, ao largo de Monte Real. A primeira parábola consistiu na gravidade de Marte, a segunda na gravidade da Lua e as restantes microgravidade.
Testemunho
da Sofia
e do Miguel
Na fase final os jovens responderam a três questões: “se alguém ao teu lado, durante o voo, em gravidade zero, vomitasse o que farias”?; se chegasses a Marte quais seriam as primeiras palavras?; e “o que queres fazer no futuro?” Sofia Maia não teve dúvidas quanto à resposta a esta última: “Quero ser engenheira aeroespacial, que é um caminho para ser astronauta e eu quero muito ser astronauta”.
“Foi a melhor prenda de anos que podia ter, foi inesquecível, absolutamente fantástico”. A alegria e entusiasmo são facilmente perceptíveis nas palavras de Sofia, da Figueira da Foz, que comemorou o seu 17.º aniversário em pleno voo parabólico. Um sonho torna- do realidade que, assegura, a levou a ter mais certezas ainda daquilo que sempre quis seguir na vida.
Sofia soube do concurso porque três pessoas conhecidas lhe falaram nele considerando que se ajustava às suas características e que “fazia todo o sentido participar mesmo que não passasse à fase final”.
“Ser astronauta é um trabalho de equipa e fiquei fascinada por esta profissão desde o meu sétimo ano, fui pesquisando cada vez mais sobre a área e fiquei a querer ser astronauta. Com este voo parabólico tive ainda mais certezas que é mesmo isso que eu quero seguir”. No final desta experiência há uma outra certeza que não esquece de sublinhar: “voltava a repe- tir tudo e se pudesse ficava lá o dia todo”.
Miguel Fernandes, de Soure, também tem 17 anos e, tal como Sofia, considera que esta foi a melhor experiência da sua vida. “Foi a minha professora de português que me apresentou ao projecto e incentivou a participar, inscrevi-me e enviei uma candidatura, acompanhada por um vídeo, e fui passando as fases até ser um dos 31 escolhidos”, explica. A prova física foi a que mais o preocupou uma vez que, duas semanas antes, tinha tido Covid-19, deixando-o um pouco debilitado, no entanto, conseguiu superá-la com sucesso.
A paixão pelo Espaço – conta – vem de tenra idade. “Tenho desde pequeno esta paixão pelo Espaço, moro numa zona rural e o céu é muito estrelado à noite. Em Portugal não havia muito como explorar este meu gosto e agora não sei ainda o que quero fazer no futuro – embora tenha quase a certeza que será ligado à engenharia aeroespacial – mas acredito que este projecto me vai ajudar a decidir”. A preparação para o derradeiro dia foi feita em quatro dias. Depois disso, faltam as palavras a Miguel para descrever esta experiência única. “Ficámos 20 segundos em gravidade zero em cada uma das parábolas e é difícil de explicar a sensação… não é como voar, não é como nadar, apenas não sentimos nada, não há nada a agarrar-nos, de um momento para o outro deixa- mos de sentir o que quer que seja. A parte que mais gostei foi a primeira parábola, com a gravidade de Marte, em que sentimos o dobro do nosso peso e, de um segundo para o outro, estávamos a flutuar. Voltava a repetir, foi a melhor experiência da minha vida”.
Nádia Moura