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ENTREVISTA: Luís de Matos lembra que “na magia não há playback”

24 de Setembro 2022 Jornal Campeão: ENTREVISTA: Luís de Matos lembra que “na magia não há playback”

Luís de Matos, nascido em Moçambique mas a viver em Coimbra desde os 15 anos, é o mais premiado e reconhecido mágico português. Foi distinguido três vezes pela Academia de Artes Mágicas de Hollywood, sendo que é o mais jovem da história a receber o Devant Award, do The Magic Circle. Volta agora a surpreender com mais uma viagem pelo mundo da ilusão com o “Luís de Matos IMPOSSÍVEL Ao Vivo”, que regressa às grandes salas, com um novo elenco e novas ilusões, e que acontece ao longo de cinco semanas em quatro cidades portuguesas: Coimbra, Lisboa, Faro e Porto. Mas, antes disso, há “Encontros Mágicos” para (re)viver, em Coimbra, desde terça-feira (20) e até ao próximo domingo (25). Luís de Matos fala da importância deste Festival Internacional de Magia e fala também, sem tabus, da “derrota” de Coimbra na corrida a Capital Europeia da Cultura 2027.

Campeão das Províncias [CP]: Como é que se decide pela área da magia?
Luís de Matos [LM]: Não há nenhum antecedente na família, mas sendo filho único os meus pais permitiram-me fazer mais ou menos sempre aquilo que queria desde que respeitasse a questão académica. A técnica que utilizei foi ser bom aluno e assim pude levar avante o que realmente queria. Quando somos miúdos passamos por uma catadupa de coisas que queremos ser quando “formos grandes”: um dia astronauta, outro dia médico, bombeiro, mágico, jogador de futebol… e a
mim a roleta acabou por ditar que esta seria aquela em que me sentiria melhor. Há uma inquietude própria de quem está nas áreas performativas, na cultura em geral, uma insatisfação permanente e uma busca constante em nos superar-
mos e acabamos por não ficar na rotina como podem ser noutras profissões.

[CP]: Mas não é daí que vem o dinheiro… a arte compensa?
[LM]: O dinheiro para mim é como a bateria no telemóvel, preciso de a ter para fazer chamadas. Só fazemos o que fazemos hoje porque há uns anos decidimos in- vestir em equipamento que hoje é o sítio onde trabalhamos, o Estúdio 33. Sou muito rico, sim, mas nas memórias de como passei até hoje os meus dias. As pessoas que escolhem uma profissão
mais convencional, a partir de certa altura, é expectável quanto é que vão ganhar daqui a um mês ou daqui a 10 anos. Há uma base de facturação que transmite essa “tranquilidade”. No meu caso e do colectivo que represento (somos nove pessoas há já 27 anos), nunca sabemos com muita a antecedência como e quando vamos pagar ordenados. O factor de incerteza acaba por se traduzir num aumento de criatividade e numa permanente busca por bem fazer, fazer diferente, e foi isso que aconteceu na pandemia, altura em que fizemos três projectos muito originais que nunca teriam aconteci-
do noutras condições e que nos deram a distracção para não ficarmos bloqueados.

[CP]: O que faz no palco cria curiosidade a quem vê…
[LM]: É a noção da impossibilidade. Desde que  nascemos, cada ser humano traz a capacidade de, em qualquer momento do seu crescimento, separar aquilo que acha ser possível do que tem a certeza do que é possível. E o que nós fazemos é torcer essa linha. Uma criança de seis anos ou um adulto de 88 sabe que é impossível que o copo voe pela sala, então, se eu criar essa ilusão que ele voa pela sala, o momento mágico acontece. Existem palavras que as pessoas usam de forma mais ou menos indiferenciada quando se referem ao trabalho que fazemos. Eu próprio resolvi distinguir estes termos: o truque está ao nível de um instrumento musical, telas de um pintor, máquina de escrever… ferramentas que lhe permitem desenvolver o seu trabalho. Um jornalista não é por ter uma máquina de escrever ou um computador que a peça para sair no dia seguinte se faz sozinha e o mesmo acontece com os outros exemplos que dei. A ilusão é o que nasce fruto da inspiração que o artista foi capaz de ter (o texto do jornalista, a composição musical…). Quando a ilusão é partilhada com um público, aí sim, ela pode verdadeiramente converter-se em magia.

[CP]: A sua equipa conhece os truques que faz?
[LM]: Claro, naturalmente, é um trabalho de equipa onde todos nós contribuímos de alguma forma para o processo final. A “mina” está, acima de tudo, numa curiosidade e inquietude que é o segredo para que nos mantenhamos jovens de espírito. Pensamos sempre que o próximo espectáculo vai ser o melhor de sempre e há uma série de protecções para que, de alguma maneira, possamos reinventar-nos e ir com um sorriso trabalhar. Por cada 20 ideias se calhar só uma é que se aproveita. Há coisas que nunca chegam a ver a luz do dia, mas outras vezes acontece haver espectáculos novos que estreiam com um alinhamento e depois de- pende da reacção e dinâmica do público. Na magia não há playback, cada espectáculo é o resultado da interacção da equipa com o público desse dia. Hoje em dia é cada vez mais difícil convencer pessoas a estar duas horas dentro de uma sala de teatro a ver magia. As pessoas que não caem nessa facilidade de pegar noutras coisas para fazer, com a variedade que há hoje, e que agarram na família para ir àquela sala de espectáculos… isto coloca-nos num patamar de responsabilidade inacreditável.

[CP]: Os Encontros Mágicos estão aí…
[LM]: Sim, e sobreviveram a vários públicos. O evento ganhou um posicionamento que o catapultou para o segundo maior evento que acontece em Coimbra (o primeiro é a Queima das Fitas). É o evento que tem mais espaço de Media a nível nacional, e isto é mérito do Festival, da forma como desde início a cidade o acarinhou. É transnacional, transversal e até difícil porque não existe outro festival como este a nível nacional. Na apresentação dos Encontros Mágicos foi reafirmado o interesse em manter o evento como parte da programação regular da autarquia além de procurar investir mais nele, até porque não acontecem Encontros Mágicos em nenhuma outra cidade no país, é algo específico em Coimbra. Acontecem de terça a domingo e, enquanto no país se cancelavam milhares de eventos, este aconteceu em 2020 e 2021 com a conjugação de três entidades: a equipa que me acompanha, o departamento de cultura da Câmara de Coimbra e a Direcção Geral de Saúde. Este ano regressa em formato pré-pandemia e haverá magia nas ruas, magia na região (levamos os espectáculos a algumas freguesias que não estão no centro da cidade), magia solidária (junto de algumas instituições) e magia na escuridão (para invisuais), além de galas internacionais (única actividade paga), com um cartaz composto por 16 artistas que vêm de três continentes sendo que, dos 16, oito nunca estiveram na cidade. Vai ser um grande evento num
investimento da autarquia de 73 mil euros (mais IVA). Mas este é um Festival que acontece fruto da paixão de todos. Não é de todo uma operação económica, é uma iniciativa singular e é por isso que as pessoas vêm.

[CP]: O que é que aconteceu afinal com a candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura?
[LM]: O grupo com quem tive o privilégio de trabalhar é de altíssima qualidade. Quer Manuel Ma-
chados quer José Manuel Silva sempre me deram carta branca para as nossas decisões. O caminho foi feito com paixão e sentimos que houve batota, foi uma farsa e uma fraude. É inaceitável que façamos a apresentação de um ‘bid book’ que de- morou três anos a escrever e tenhamos a certeza que nenhum membro do júri o leu. Houve várias candidaturas prejudicadas, o sistema está viciado, um pouco apodrecido até. É uma pena que o sistema tenha tantas falhas e seja tão frágil e permita uma aberração tão grande: Coimbra não passar à short list foi um crime. A Comissão Europeia diz que o programa das Capitais Europeias da Cultura é transformador e é o motor da Europa. Se é tão importante e tão transformador para um país por que razão não existe um critério geográfico? Como é permitido que em 2001 a capital europeia seja no Porto, em 2012 seja em Guimarães e em 2027 seja, potencialmente (porque é uma das escolhidas na short list) Braga? Parece-me mal que se permita que ele decorra na mesma área metropolitana durante 30 anos. Alguém anda distraído! Depois, enquanto na Letónia das oito cidades passaram quatro, em Portugal de 12 também passaram quatro… deveriam passar seis ou sete, já que em Outubro apenas uma passa. Um dos consultores que trabalhava connosco esteve envolvido em três candidaturas vencedoras ao longo das últimas décadas, foi director artístico de três Capitais Europeias da Cultura, e quando tivemos conhecimento da constituição do júri que incluía pessoas que não devia incluir, ele deitou as mãos à cabeça. Conheço as outras candidaturas e gostava que ganhasse Ponta Delgada, sobretudo porque é a extrema periferia, é Europa, é Portugal e é um bom sinal que se dá a todas as cidades o facto de fazer acontecer lá além de que tem aspectos que deviam ser valorizados.

[CP]: Coimbra é uma cidade que cultiva a cultura ou isto é cliché?
[LM]: Não é cliché, há dados concretos. Coimbra é a terceira cidade do país com maior número de eventos culturais. Claro que existem uma série de outros aspectos que podem induzir em outro sentido. Temos de olhar para dentro de Coimbra e temos de reconhecer que em Coimbra existe uma baixa auto-estima, que faz com que, por exemplo, pessoas da cidade vão ver o mesmo espectáculo a Lisboa ou Porto e não a Coimbra. Pergunto-me se não podemos combater essa fome que temos de cultura com apoio aos agentes culturais da cidade.

Lino Vinhal / Nádia Moura

»» [Entrevista da edição impressa do “Campeão” de 22/09/2022]