Assumiu a liderança do Movimento Independente Mais e Melhor, ganhando as eleições autárquicas em Setembro de 2021, para a liderança à Câmara da Mealhada. António Jorge Franco, que já foi presidente da Fundação Mata do Buçaco, “destronou”, assim, Rui Marqueiro, do qual admite ter um conceito diferente daquilo que almejam para o concelho. O edil fala de investimentos pouco estudados pelo anterior Executivo, como é o caso do Mercado da Mealhada. Agora, António Franco espera concretizar alguns sonhos em prol do concelho, de entre os quais realça a criação de um espaço público de excelência para a população.
Campeão das Províncias [CP]: Um mandato de quatro anos não dá para perceber a realidade?
António Franco [AF]: Os mandatos de quatro anos são curtos. Temos de ter tempo e paciência, as coisas são muito demoradas. Os legisladores acham que somos todos malfeitores, criando legislação que dificulta a gestão do quotidiano. Para vir para a política tem de se gostar muito e a melhor coisa que temos neste trabalho é sentir que contribuímos para o bem-estar da nossa população.
[CP]: Como encontrou a Câmara da Mealhada?
[AF]: Desorganizada. Foram feitos grandes investimentos, com grandes valores monetários, mas desenquadrados. Temos grandes obras, mas não sabemos o que vamos fazer com elas e não temos capacidade técnica e operacional para que essas obras sejam uma mais-valia para o concelho. Em paralelo, falta intervenção em áreas primordiais para o concelho. Por exemplo, temos uma grande “sala de jantar” na Mealhada e depois não temos espaço público qualificado à volta dos
restaurantes. Falta-nos a qualificação e valorização centros urbanos. E temos também falta de habitação, temos muito lotes que não estão construídos.
[CP]: O presidente anterior, Rui Marqueiro, que continua como vereador, tem-lhe dado alguma ajuda?
[AF]: Creio que o Dr. Rui Marqueiro ainda não aceitou muito bem os resultados das últimas eleições e o pensamento que ele tem para a Mealhada é diferente do meu. Ele tomou a opção de construir um Mercado da Mealhada, com valores acima dos três milhões de euros, que, no meu entender, não tem a melhor localização. É fora do centro da cidade, com dificuldade de acessibilidade para pessoas com mobilizada reduzida, com o constrangimento da linha de comboio entre a cidade e o mercado. Os mercados têm de ser apelativos. Dou sempre o exemplo do Mercado do Luso que é um lugar que
cativa, onde se bebe o café e vai-se às compras. É possível sociabilizar.
[CP]: O investimento que foi feito na Escola Profissional está a resultar?
[AF]: O edifício continua a ser da Câmara e a Escola Profissional é que foi vendida. Penso que está a funcionar bem, embora não concordemos como o processo de venda foi gerido, porque achamos que a Câmara também devia ser
accionista.
[CP]: O vinho, a água, o leitão e o pão são os grandes activos da Mealhada…
[AF]: Sim, são as quatro maravilhas da mesa da Mealhada. Temos aqui sete produtores de vinho de qualidade. O leitão é mais que um produto, é uma marca. Pode fazer-se em qualquer canto do mundo, mas não é a mesma coisa, é como o pastel de nata. E é um mercado que não se sente a decair devido a vários factores, mas muito em parte porque os restaurantes são muito rigorosos na excelência do produto que apresentam. Logo no abate: o leitão é abatido no mesmo dia em que é consumido e, para isso, foi feito um avultado investimento pela Câmara da Mealhada, na garantia de veterinários que assegurem este processo, em colaboração com a Direcção Geral Veterinária. Depois, a confecção: tem de haver um bom assador e uma boa carcaça. Os restaurantes são muito profissionais e fizeram com que este mercado não só não retraísse como aumentasse. O desporto também é uma marca do concelho. O Centro de Estágios do Luso, os Pavilhões de excelente qualidade que temos nas diversas freguesias e a qualidade da nossa hotelaria fazem com que várias selecções e equipas nacionais e internacionais escolham a Mealhada para os seus estágios.
[CP]: E a Serra do Buçaco é um activo que dá receita ou dá prejuízo?
[AF]: A Serra do Buçaco é o maior activo do concelho e tem todas as condições para ter receitas positivas. É única no país, seja do ponto de vista do património cultural, histórico, religioso e, claro, natural. Mas obriga a que haja um grande investimento ao nível de preservação e as várias entidades nacionais e regionais têm que ser envolvidas. A mata é gerida por uma Fundação e a Câmara já não interfere em nada. A Via Sacra da Mata, uma réplica de Jerusalém, é única no mundo. Temos turistas de todo o mundo e temos de envolver as universidades porque são uma mais-valia não só para garantir o património mas para trazer turistas. Temos o Turismo de Portugal empenhado na resolução da questão do Palace Hotel do Buçaco que é também um ex-libris e, em princípio, até ao final do ano fica esse problema resolvido. A Câmara da Mealhada vai estar atenta e acompanhar a gestão da Fundação. A mata deve ser uma mais-valia para a região, porque o é, de facto.
[CP]: O cineteatro Messias é de grande qualidade e conseguem ter uma excelente programação, por vezes melhor que a programação de estruturas destas em grandes cidades…
[AF]: A Mealhada tem apostado muito na cultura e temos esta excelente infra-estrutura, mas também uma excelente equipa de profissionais. Desenvolvemos um trabalho dentro e fora do cineteatro para que possam ser feitos espectáculos também ao ar livre, descentralizando a cultura e levando-a às freguesias. E temos uma enorme variedade de espectáculos – da música ao teatro, da dança ao humor -, desde produções nacionais a produções das nossas associações e escolas de teatro.
[CP]: Está satisfeito com o processo de descentralização?
[AF]: Não. Foi muito mal feita, não houve diálogo, não havia informações e queriam passar-nos responsabilidades sem dinheiro. Querem que sejamos tarefeiros deles. Era incomportável irmos assumir o património, os funcionários, algumas das actividades a nível do equipamento que está obsoleto, e dão-nos meia dúzia de tostões com valores completamente desactualizados. Felizmente, houve uma união muito forte na CIM Região de Coimbra. Aderimos ao ensino. A saúde e área social estamos a aguardar. Até assinar ainda quero ter algumas certezas, mas estou optimista. De realçar o trabalho da ministra Ana Abrunhosa, que foi extraordinário.
[CP]: A Mealhada faz parte do distrito de Aveiro mas está aqui perto de Coimbra…
[AF]: … estamos em Coimbra, claramente. É extraordinário trabalhar com os municípios da CIM, foi boa a adesão, a CIM tem saúde e tem muito a ver connosco. Como é que consigo dizer à população da Mealhada que quando vai à janela vê a Torre da Universidade de Coimbra, mas pertence a Aveiro? Coimbra está dentro da Mealhada. A última aldeia de Cantanhede, que pertence ao distrito de Coimbra, está mais longe de Coimbra do que a Mealhada.
[CP]: Que sonhos tem para os restantes anos de mandato?
[AF]: O meu maior sonho é que a Mealhada tenha um espaço público ao serviço das pessoas, onde elas tenham orgulho de passear. Conseguirmos ter centros urbanos aprazíveis para que os comerciantes também possam desenvolver os seus negócios. É um trabalho lento, mas ao qual queremos dar seguimento. Outro sonho é recuperar o património que está muito envelhecido e degradado. Queremos que seja agradável visitar as nossas aldeias, as nossas capelas, os nossos espaços verdes. Queremos também que o Metro de Superfície e a Ferrovia se juntem numa grande estação na Mealhada e que esta linha fique quase interurbana. Defendo que se deve estender o Metro até à Anadia e que as pessoas possam rapidamente chegar a Coimbra e daí rapidamente chegarem à Mealhada. Este corredor Coimbra-Mealhada também é um dos meus sonhos.
Lino Vinhal / Nádia Moura