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ENTREVISTA: Rui Sampaio atento às necessidades do concelho de Góis

10 de Setembro 2022 Jornal Campeão: ENTREVISTA: Rui Sampaio atento às necessidades do concelho de Góis

Rui Sampaio trabalhou quatro décadas na Autoridade Tributária mas, antes de ser eleito presidente da Câmara de Góis nas últimas eleições autárquicas – em Setembro de 2021 –, já tinha sido candidato em 2017 tendo ficado, na altura, a exercer funções de vereador, sem pelouro atribuído, nesta autarquia. Este cargo, aliado ao facto de viver há mais de 40 anos em Góis, permitem-lhe ter um conhecimento profundo deste concelho que agora lidera não escondendo, no entanto, que a realidade “de trabalho em campo” é diferente da que antes lhe era familiar. Garante que tem os pés bem assentes na terra e que vive “um dia de cada vez” na prossecução dos objectivos que pretende alcançar para o concelho, com a ajuda de uma equipa que, congratula-se, se sente motivada e empenhada.

Campeão das Províncias [CP]: Como é ser presidente de um concelho do Interior que não
é um concelho rico?
Rui Sampaio [RS]: É difícil e estimulante ao mesmo tempo. Difícil porque não é um concelho rico, é um concelho que tem uma área territorial de cerca de 300 quilómetros quadrados, com muita floresta e pouca população, e isso traz dificuldades acrescidas nos tempos que correm. A projecção para os próximos 10 anos não é de inversão desta situação e no nosso território é uma preocupação este envelhecimento da população acentuado e os poucos nascimentos, mas não há uma fórmula mágica. Estimular o emprego para trazer pessoas, disponibilizar habitação, acessibilidades em condições, tudo isto ajuda, mas este decréscimo tem muito a ver com o nosso modo de vida. Há umas décadas atrás os casais tinham quatro a seis filhos, mas actualmente não é a nossa cultura porque as mulheres – e com todo o direito – querem ter a sua carreira, a sua profissão.

[CP]: Mas não foi apanhado de surpresa porque conhecia muito bem o concelho?
[RS]: Não fui porque também estive antes como vereador sem ser em permanência e isso
deu-me algum conhecimento, se bem que a realidade do dia-a-dia é substancialmente
diferente da de estar na oposição. Mas as dificuldades estimulam-nos, a mim e à minha
equipa, estamos muito motivados para dar uma boa resposta aos desafios com que somos
confrontados diariamente.

[CP]: A floresta é uma das riquezas de Góis mas o concelho tem sido um concelho sacrificado também a nível de incêndios…
[RS]: Sim, 2017 foi um ano muito complicado, houve uma vasta área que ardeu. Góis tem manchas florestais muito extensas e há um conjunto de medidas que temos de tomar, nomeadamente a limpeza da floresta. Isto ajuda, mas não é tudo. Hoje há uma cultura do eucalipto o que, por um lado, é bom para a economia, mas por outro, no que concerne aos incêndios, preocupa-nos o facto de serem susceptíveis à ignição e propagação de fogos. Temos feito o nosso trabalho e estamos atentos aos meios que podemos utilizar para reduzir a despesa. Há mecanismos legais que permitem que se pague menos pelo gasóleo – a utilização do gasóleo agrícola – e tivemos uma visita das entidades do Estado da área das florestas e ambiente, onde fiz referência à importância dos municípios terem acesso a uma redução de impostos no combustível e assim foi publicada uma Portaria que permite reduzir a despesa naquilo que é a gestão pública florestal com a utilização das máquinas que fazem parte do documento da Portaria. Isto já ajuda, reduz a despesa e permite fazer um pouco mais de trabalho daquilo que é a nossa exigência legal e que para territórios como Góis que tem um orçamento de 10 milhões para tentar acorrer a todo o lado. Uma coisa que aconteceu muito este Verão, por exemplo, foi o caso dos que são naturais de Góis e lá voltaram serem confrontados com estradas onde não conseguimos limpar bermas por causa das limitações devido à probabilidade de incêndio. Agora já estamos a fazer esse trabalho como é nossa obrigação. Temos interessados em explorar a floresta duma forma sustentável, empresas que trabalham a madeira e havendo a possibilidade, quem sabe a instalação de uma indústria nesta área. Mas são processos que levam o seu tempo e eu gosto de pensar as coisas no dia a dia, gosto de ser realista.

[CP]: Como é que o encontrou o concelho quando foi eleito?
[RS]: Havia uma série de procedimentos em curso e o nosso trabalho foi andar com eles para a frente. Este ano já fizemos alguma obra e muitas outras lançadas pelo antigo Executivo, o orçamento está controlado. Uma das grandes dificuldades que sentimos é não haver uma via estruturante em condições. Góis é uma ilha, não tem um IC, não tem um IP… vários presidentes têm tido esta luta e tentado melhorar as acessibilidades, nomeadamente a ligação a Penacova, a Nacional 2… já foi, entretanto, aprovado o estudo de viabilidade ou da requalificação de uma estrada já existente ou de uma nova via, com várias opções possíveis. Outra dificuldade é não termos em Góis uma zona industrial que consiga captar investimento. Fruto do que aconteceu em 2017 e da intenção de investimento que foi manifestado pela Lusiaves, estamos de volta desse processo e penso que algo vai acontecer daqui e vejo esta possibilidade de ter uma empresa da qualidade dimensão da Lusiaves, leva-nos de facto a sermos eficazes e o mais rápidos possíveis para levar este processo a bom porto. Tenho a esperança que tendo ali alguém que tenha peso e que possa fazer pressão faça que aqueles que estão no Poder Central possam olhar para os concelhos de outra forma.

[CP]: A CIM pode ajudar nestes temas?
[RS]: Sim. Ouve-se mais facilmente e permite que os governantes olhem mais facilmente para estes concelhos como um todo e não isoladamente. A CIM – agregando um conjunto de municípios – cria peso e, consequentemente, tem Poder reivindicativo, além de que está em muitos procedimentos e sentimos que conseguimos ter outro entendimento. Tenho percebido que – independentemente da cor política de cada um – há solidariedade institucional.

[CP]: E a nível escolar como está Góis?
[RS]: Somos muito sensíveis à educação dos mais novos. Este ano tivemos um conjunto de jovens que, não sendo o ano de acesso à universidade, vieram frequentar a Universidade de Verão da Universidade de Coimbra. Além disso, estivemos num processo para tentar implementar uma turma de ensino profissional em Góis na área das energias renováveis. Temos uma escola que tem capacidade para tipologia de ensino secundário, tínhamos todas as condições necessárias – número de alunos, espaço, empresas que dariam os estágios… – mas não houve sensibilidade para isso por parte da DGEST. Temos parceria com a Escola do Pinhal – sediada em Pedrogão – e estamos sintonizados para manter este interesse para que isto ainda venha a acontecer.

[CP]: Quanto à descentralização…
[RS]: Há muitas competências que assumimos mas a materialização da transferência dessa competência muitas vezes passa por sermos nós a emitir uma taxa ou licença. A Educação assumimo-la porque ela operou legalmente e as contas que já estamos a fazer para o próximo ano lectivo já vai nos cento e tal mil euros de prejuízo em relação àquilo que é o financiamento que temos. Fico mais ou menos tranquilo quando vejo o mecanismo que foi criado no Orçamento de Estado que permite monitorizarmos aquilo que é o défice entre a transferência efectiva e a despesa que é efectuada e podermos no ano seguinte reivindicá-la em termos de Orçamento de Estado. Na área da Saúde fomos confrontados com autos completamente surrealistas e, naquilo que era essencial os autarcas terem alguma palavra a dizer, nós não metemos a mão. Na Acção Social que vem a partir de Janeiro também há um défice acentuado naquilo que são as necessidades dos municípios até porque há um conjunto de carências nessa área no concelho de Góis para as quais temos de ter muita atenção.

[CP]: Manter a estrutura que a Câmara de Góis tem com 10 milhões não deve ser fácil…
[RS]: E cerca de 40% é para salários. Em relação ao orçamento do ano anterior tivemos uma redução de quase meio milhão de euros. Neste momento, estamos com o problema dos transportes, a Trandev monopolizou os transportes e, apesar da CIM ter tentado negociar em nome dos municípios, aquilo com que está a ser confrontada são cinco vezes mais do preço que existia. Nós temos o início do ano lectivo à porta e temos de assegurar os transportes e digo-lhe que a proposta que fizemos o ano passado para o plano de transportes deste ano foi de 170 mil euros e a Transdev confrontou-nos com 320 mil euros. Isto quer dizer que tínhamos uma despesa mensal de 14 mil euros e assim passa para 21 mil. Este município também não tem muito onde ir buscar receitas e isto tudo são constrangimentos mas eu fui paraquedista e uso nesta função a mesma máxima: “que nunca por vencidos nos conheçam”.

      Lino Vinhal / Nádia Moura

»» [Entrevista da edição impressa do “Campeão” de 08/09/2022]