A história começa quando, em 2020, o Festival Caminhos do Cinema Português ocupou de forma exploratória a sala das Galerias Avenida na sua 26.ª edição, acto esse que viria a marcar a vida cultural da cidade de Coimbra. Numa das fases mais difíceis e incertas dos últimos anos para criar novos projectos de índole cultural, com o país a atravessar várias fases de confinamento e em que as actividades da área foram obrigadas a parar, surgiu a constituição de um espaço dedicado à sétima arte. Este propõe-se criar um ponto de encontro da cinefilia, numa tentativa de direccionar a região para um caminho coeso na promoção da cultura cinematográfica. E foi assim que o Festival Caminhos, o Centro de Estudos Cinematográficos (CEC) e o Fila K Cineclube deram corpo a uma peça crucial que labora na preservação e promoção do património cultural e da memória colectiva: a Casa do Cinema de Coimbra.
De acordo com Tiago Santos, cabeça que arquitectou a ideia, o projecto para a Casa foi candidato ao financiamento do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), esperando também “sensibilizar o Município para a importância de reactivar um espaço como os estúdios das Galerias Avenida”.
Recuando a esta fase, Tiago Santos diz que todo o processo “se pode facilmente resumir à palavra sorte”. Há muito que o Festival Caminhos “penava” por um projector de cinema digital (DCP) e a dificuldade em conseguir apoios para a sua aquisição era muita. Eis que surge um concurso, chamado Ad Hoc, ao qual se candidataram e ganharam. Após a audiência de interessados, juntaram a verba conseguida de 17 mil euros com “outras poupanças” e adquiriram o projector. “A partir do momento em que tivemos acesso a um sistema profissional conseguíamos ir para uma sala de cinema”. Esta transição era até imperativa, uma vez que o novo sistema pedia uma potência superior à existente no Auditório Salgado Zenha no edifício da Associação Académica de Coimbra. Apesar de este poder cumprir o proposto, não seria “dignificado por vários aspectos intrínsecos ao edifício, à sua frequência e dimensão”.
Se, por um lado, a pandemia foi castradora em diversos sentidos, também deu tempo para o CEC e o Caminhos maturarem a ideia do que poderia ser feito e, sobretudo, “de que forma é que nós poderíamos trabalhar para construir um espaço nosso”, referiu Tiago Santos. Depois apareceu o Fila K a participar. A ideia passava por “não ser um espaço tão frágil e ameaçado quanto a marca do Caminhos, que se caracteriza por não ter espaço fixo e por depender de apoios”, refere. “E se nós chamássemos àquele sítio «a sala do Cinema Avenida» iríamos facilmente cair nessa fragilidade”.
Neste ponto, “aquilo que fizemos foi criar um compromisso connosco, depois com a cidade e com o que seria a autarquia, de criar um espaço que fosse comum à massa associativa na área da promoção do cinema e aquilo que seria juntar o público das associações num espaço só”. E foi assim que surgiu o nome, justificando: “Casa no sentido em que várias pessoas conseguem habitar e dividir um espaço, estarem presentes e em comunhão”. Foi a partir daí que surgiu o nome Casa do Cinema de Coimbra.
Para Tiago Santos esta foi “uma acção chamativa daquilo que era a precariedade não só do Caminhos, não só do CEC e não só do Fila K. Trata de todos porque a área do cinema acaba por receber um apoio minoritário face a outras áreas como a das artes plásticas, música ou grupos recreativos (que têm orçamentos bastante maiores). Para não falar naquilo que são as associações que ocupam equipamentos municipais”. O que aconteceu com a aquisição do projector DCP foi “ganhar uma arma de trabalho”. E é por isso que, para ele, tudo se resumiu ao factor sorte. “Foi a sorte de irmos a concurso, de estarmos no momento certo na hora certa e de termos algum dinheiro a mais colocado de parte – porque o concurso não pagou o projector na totalidade”, acrescenta.
Em 2022, e por via do que é um aspecto burocrático dos concursos de apoio à actividade cultural, a Casa começou o ano sem apoios e sem fundos do ano anterior, uma vez que já os tinha executado. Assim, viram-se obrigados a encontrar alternativas sustentáveis, reinventando o modelo de programação. “Tivemos de abdicar daquilo que é um modelo de curadoria tipo cinemateca para ir ao encontro do que é uma exibição próxima do modelo comercial. A partir daí tivemos de encontrar um modelo sustentável do ponto de vista financeiro e daquilo que é o nosso compromisso com o cinema”. Parte da solução passou por “recorrer a alguns filmes americanos de massas, mas que, de alguma forma, não fossem descaracterizantes daquilo que é a missão cultural das associações”.
Fusão
A ligação das associações aconteceu de uma forma muito natural. O CEC e o Caminhos estão habituados a trabalhar em simbiose, porque sempre articularam os seus cursos e a sua missão em conjunto. O Fila K sentiu que essa sinergia seria possível e benéfica. Apesar de não possuírem os meios e o equipamento, o CEC e o Caminhos tinham. Assim, o Fila K entrou com a sua programação semanal regular e o CEC e o Caminhos faziam a produção. O grupo procurava um projecto comum e coeso no qual se falasse uma única voz, acrescentando Tiago Santos que “muitas vezes acontece, em Coimbra, cada um ter a sua capelinha e todas as vozes serem dissonantes”. “O que fizemos foi agregar e oferecer com qualidade aquilo que era a actividade comum das três associações. O resultado é que tanto a oferta da Casa do Cinema é superior à oferta de cada uma das associações, como também aquilo que se criou a nível de público é superior ao que era a soma dos três públicos”, sustenta.
Formação
O Festival Caminhos sempre viu a formação como uma acção de relevo, mas durante a pandemia foi obrigado a suspender a actividade. A vontade é “de fazer, mas com mais qualidade e com mais tempo”. Um dos pontos que Tiago Santos refere é o desejo de poder “conferir um grau às pessoas”, acrescentando que “não tem de ser do ponto de vista do ensino superior, mas do ponto de vista profissionalizante para que se possa desenvolver um ‘cluster’ na área do cinema”. Desta forma, a ânsia passa por “habilitar mais técnicos e formar mais recursos humanos competentes”.
Cinema Avenida
A escolha da sala fez-se por si própria. “Porque tinha bancos e colunas”, justificou Tiago Santos, acrescentando que “era preciso apenas pôr lá um projector e um processador de som”. Na sua opinião, “foi e é a melhor solução que há em Coimbra para fazer uma sala de cinema exclusiva”. A decisão passou por aproveitar os recursos que já existiam e rentabilizar as dinâmicas da cidade, “uma vez que as pessoas gostam de estar no centro e andar a pé”.
Porém, o lado emblemático inerente ao espaço influenciou a adesão do público. “Criou-se um fenómeno, porque as pessoas iam por curiosidade e visitavam a sala mesmo sem sessões, como se fosse um museu”. A questão do factor memória, da construção de um espaço sobre o outro, foi importante para a disseminação da palavra. Aquele é um espaço de memórias, “onde podemos habitar e onde há amor pelo cinema. Também por isso lhe chamamos Casa”, admite.
Em Maio deste ano deu-se uma reviravolta naquilo que se previa poder ser um fim, através da compra dos dois estúdios do Avenida por parte da Câmara Municipal. As associações viram este investimento “como um acto de confiança e de reconhecimento do trabalho feito”. Para Tiago Santos “era uma injustiça o cinema não ter um plano municipal e esta iniciativa representa uma mudança radical do paradigma de apoio cultural a esta área”. O vice-director do Festival Caminhos desabafa que pensa que “foi preciso usar o nome de Coimbra para que houvesse um reconhecimento para os Caminhos”.
Bilhética
Normal: 5 euros (pontual) / 35 euros (passe de 10 sessões)
Reduzido: 4 euros (pontual) / 30 euros (passe de 10 sessões)
Sócios CCP: 2 euros
O bilhete com preço reduzido é reservado a sócios das entidades promotoras na Casa, parceiros, estudantes, desempregados, cineclubistas, seniores, grupos ≥ 10 e profissionais do espectáculo.
Adelaide Martins
»» [Reportagem da edição impressa do “Campeão” de 01/09/2022]