Quando em 2011 tivemos a crise das dívidas soberanas oriunda dos EUA (Lemon Brothers), os cidadãos e várias forças políticas não reconheceram ou não quiseram reconhecer a influência da crise internacional em Portugal, rejeitando o PEC IV e levando à entrada da troyka e, posteriormente centrando as atenções em protagonista obscuro, autojustificando-se, e procurando deixar cair no esquecimento a influência externa em Portugal.
Hoje, há nova crise internacional, desta vez despertada pela pandemia e pela guerra contra a Ucrânia, e ninguém invoca motivos internos e figuras políticas para tal, antes se procura minimizar os prejuízos ocasionados pela prepotência e pela ânsia do domínio geoestratégico, que massacra um povo e demonstra as limitações em manter o equilíbrio político e acabar com a agressão, enquanto a paz ainda vem longe.
A inflação, que estava em letargia, tomou conta do mundo, não se podendo desconhecer as influências que tal representa, desde os mercados de abastecimento, às políticas nacionais, à economia circular, às empresas em adaptação para manter os seus proveitos, aos trabalhadores que veem bens a subir e salários a não acompanhar, às famílias de parcos rendimentos em desequilíbrio e ameaça de rotura.
As medidas tomadas de apoio social e as medidas de contenção e subsidiação de preços de bens, sustentáculo de famílias, deverão ser acompanhadas de valorização de salários, sustentáculo do trabalho, dado que as expectativas de desaceleração da inflação e do aumento do crescimento económico não foram ainda atingidas.
Pelo contrário, a inflação geral americana de Junho subiu mais do que o esperado, e o ritmo de desaceleração da inflação core (a inflação que excluí os preços de energia e dos bens alimentares) foi muito menor que as estimativas, subindo para 5,9% e aturdindo os mercados negativamente.
E o 2.º semestre?
O que vai acontecer no segundo semestre? Na verdade, não sabemos, mas não podemos ficar imobilizados ou até reféns da situação externa.
O custo de transporte de mercadorias da China para os EUA já caiu cerca de 40% desde o máximo atingido, e as subidas de inventários em muitas indústrias, fazem-nos acreditar na normalização das cadeias de abastecimento.
Por outro lado, quanto aos preços dos commodities (mercadorias de produtos básicos de matéria prima), os metais industriais caíram cerca de 40% desde os máximos nos últimos 12 meses, enquanto os commodities agrícolas caíram cerca de 15%.
A subida do dólar em mais de 12%, suavizou os custos dos bens importados. O mercado imobiliário americano está em desaceleração (as vendas contam 41% para a inflação geral americana e já cresceram 7,3% em termos homólogos em Julho, e as rendas representam 41,5% da inflação core).
Ao contrário destas boas perspetivas, o BCE aumentou as taxas de juro de 50 pontos base (para travar a inflação na Zona Euro), o abrandamento económico existe (o que se reflete na procura), em Junho os salários reais médios dos trabalhadores americanos caíram 4,4% em termos homólogos (a inflação leva a menor procura de bens), e a excessiva dependência energética da Europa ameaça a possível descida da inflação.
Não somos um país “à beira mar plantado” nem estamos “orgulhosamente sós” no mundo, como rezava a prédica da ditadura. A crise internacional tem muitos reflexos em Portugal, determinando dificuldades no mundo laboral e familiar, e exigindo a continuidade de medidas que paulatinamente compensem parcialmente o status perdido, atingindo novo escopo, até ao fim da guerra assassina.
(*) Médico e vereador do PS na CMC