Fruto do caminho tomado pelo ser humano, estabeleceu-se nas décadas mais recentes uma aparentemente irrevogável antinomia entre, por um lado, as Humanidades e, por outro, as Ciências Exatas e Tecnológicas. Essa perceção acabaria por repercutir-se na organização do mundo e também, tantas vezes com consequências tão nefastas, no ambiente académico, que as universidades integram.
Ora, aquilo de que a este propósito falamos é da tendencial menorização que tal posicionamento acarretaria para as Humanidades, em vista do sempre apregoado maior pragmatismo das Ciências Exatas e Tecnológicas, sobretudo no contributo imediato para a evolução das sociedades. As Humanidades perderam espaço, valor e prestígio nesse novo mundo voraz, movido a algoritmos e pela tecnologia em geral, realidade que se traduziu – há que reconhecê-lo – numa muito triste depreciação dos saberes humanísticos, porque “avaliados” na lógica pura e sumária do utilitarismo e suas múltiplas formas e propostas de organização do mundo.
Os últimos anos em particular demonstraram, todavia, o que o espaço público e o que o íntimo do indivíduo perdiam, de modo sistemático, sem a criatividade e o prazer que a Literatura, a Cultura, a Filosofia ou a História, entre tantos outros domínios congéneres, permitem e potenciam. E a isso se soma o pensamento crítico e o conhecimento científico que esses vários campos das Humanidades suscitam e assim aportam e ativam nas sociedades e nas pessoas. Aliás, aquela antinomia em muitos casos nem sequer se justificaria, como fica bem evidente, por exemplo, com o cruzamento crescente que as chamadas Humanidades digitais asseguram. Embora muito lentamente, as Humanidades parecem, portanto, sair de uma incompreensível e trágica letargia que de igual modo as submergiu no seio do mundo académico, por vezes também gerido pelas lógicas da formação para um emprego “útil” ou bem remunerado, algumas vezes tristemente sustentadas pelos próprios poderes dominantes.
Desistir não era, pois, nem pode ser, o caminho. Resistir e empreender, com inovação e criatividade, a revalorização desses matriciais saberes humanísticos vem sendo o objetivo de muitos, ainda que com naturais escolhos. Na Universidade sentem-se os efeitos da referida antinomia, mas igualmente se pode já testemunhar um novo tempo – tímido, é certo – em que as Humanidades parecem despertar. Em alguns casos isso ocorre por virtude de necessidades prementes, como as que, no caso português, resultam da demanda de formar com urgência professores/as de Línguas, de História, de Filosofia ou de Geografia. Não se vê nisso, do meu ponto de vista, qualquer mal, se tal propiciar, por esse meio, a revalorização sólida desses saberes no espaço público.
No ensino superior, em particular nas universidades – meio muito peculiar–, há ainda muitas bolsas de resistência a este “regresso” das Humanidades. Há que continuar a resistir e, sobremaneira, “remar contra a maré”. Na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC) voltaram a entrar em primeira opção, como novos/as estudantes, jovens e menos jovens com mais de 17, 18 ou 19 valores. As vagas dos cursos de licenciatura ficam preenchidas na totalidade e não raro novas áreas das Humanidades, como é o caso dos Estudos Artísticos, superam expectativas de atratividade (na licenciatura, no mestrado e no doutoramento).
É missão da FLUC promover o ensino, a investigação, o pensamento crítico e a transferência de saberes no campo das Humanidades, das Artes e das Ciências Sociais e, por isso, apostamos claramente nas dinâmicas de investigação e inovação, produzindo e transferindo conhecimento e atuando em domínios tanto com tradição consolidada como com crescente lugar no mundo novo atual. Assim defendemos e projetamos, neste novo tempo, as Humanidades.
(*) Director da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra