
No passado dia 20 de Julho, a sala D. Afonso Henriques, sita no renovado Convento de São Francisco, foi palco de um evento fulcral, da iniciativa da Comissão Liberato: O concerto pela Liberdade e pela Paz, pelo qual se homenageou não só José Liberato Freire de Carvalho, por ocasião do seu 250.º aniversário, mas também, através do seu exemplo de vida, todos aqueles que pugnam pela paz e tolerância em tempos tão incertos e terríveis dominados pela sempre indesejada guerra opressora e mortífera.
Um evento muito concorrido, que esgotou a capacidade da sala, onde durante duas horas, sensivelmente, a Orquestra Clássica do Centro conduzida pelo maestro Diogo Costa encantou a assistência pela via musical, expressão artística de excelência, sendo ainda de destacar a performance da premiada violoncelista Maria Nabeiro.
O programa instrumental compreendeu partituras musicais clássicas e universais de quatro geniais compositores, relembrando assim os seus talentos expressos em três dezenas de instrumentos profissionais, os quais conferiram brilho único a uma noite comemorativa.
Beethoven abriu o acontecimento inspirado em Coriolano, um romano mítico ao contrário de Tácito, a quem José Liberato traduziu a sua principal obra para língua portuguesa antes de todos e a publicou em episódios e depois em completo e onde discorre sobre todas as perfídias e ignomínias de Tibério e do seu tempo.
Chegados a Domingos Bomtempo a orquestra e o país curvam-se perante a magistral obra do compositor lusitano revolucionário e entusiasta liberal de braço e abraço apertado com o Spartacus da Fortaleza e com os patriotas constitucionais de 1822 a quem deixou dedicatória imensa.
Um regresso a Haydn na sala Afonso Henriques depois do intervalo levou-nos aos conturbados momentos dos dias de deputado, logo expirado depois usurpado e por fim de novo exilado fugindo de um Miguel caceteiro e absoluto monarca.
O concerto a aproximar-se do tema final num Debussy divinal e a memória dos tempos das guerras e domínios miguelistas no cerco do Porto e as lutas fratricidas até Évoramonte, precedendo novas cortes e novas deputações e escritos de memórias, ensaios e traduções no regresso à velha Academia e a luta pela sobrevivência digna sem prebendas nem comendas apenas a altivez da liberdade da honra e da independência a caminho dos Prazeres engalanados pela cautela generosa do seu amigo Custódio.
Uma noite magnífica festejada para recordar e inscrever na memória da cidade um vulto imprescindível, que a Comissão Liberato, fundada em 2013, tem procurado enaltecer, dignificar e colocar no merecido lugar que deve ocupar na História dos Grandes Portugueses.
(*) Historiador e investigador