Por que valores damos a nossa vida?
A pergunta merece uma pausa. Com incómodo indisfarçável, assistimos a gestos heróicos de gente comum: alistam-se para combater sem treino militar, resistem em caves sem aquecimento, caem mortos de pé em defesa do seu país.
Diariamente, as pessoas comuns da Ucrânia juntam-se nas praias de Odessa para sacos de areia com os quais querem proteger os seus monumentos. Diariamente, enfermeiras e auxiliares cuidam de recém-nascidos na cave de uma maternidade. Diariamente, todos os homens dignos de serem homens, cavam trincheiras e lutam com fogo real nas suas aldeias, vilas e cidades, sabendo da desproporção de meios com o exército russo.
A guerra banaliza o mal, já o sabemos desde o Holocausto. As vítimas civis inocentes, com um número não disfarçável de crianças, aí estão para o provar. Por que valores damos a nossa vida? pergunta-nos, mesmo sem o dizer, Zelensky e o povo ucraniano, em cada dia que passa.
No mundo ocidental, relativizámos os valores na facilidade oportunista da ocasião e da opinião. As causas tornaram-se panfletárias e o Estado tornou-se o garante utilitário de todos os direitos. Aos cidadãos assistirá o “bem-estar” e o “direito à felicidade”, com a erradicação do “sofrimento” e de todas as agruras.
O conceito de Pátria, o sacrifício material em favor das gerações seguintes ou, simplesmente, o envolvimento pessoal para lá da zona de conforto, são ideias ultrapassadas e maçadoras na indiferença social que cultivamos.
Por isso quedamos, estupefactos, pela dependência energética que o mercantilismo impõe mesmo com Estados totalitários e sanguinários. O receio nuclear e mesmo a mais pequena disrupção do nosso “modo de vida” aconselha hipocritamente – com maldosos arautos da extrema-esquerda – a ter cuidado com a Rússia: não convém “provocar” e talvez fosse bom capitular entregando o próprio povo ucraniano (afinal, estão longe e “sempre foram soviéticos”).
Ao invés, sustento que a guerra na Ucrânia é a prova de vida do valor da liberdade – um valor que não está garantido, nem nunca estará, nas comunidades humanas. Sem liberdade, não há igualdade. Sem liberdade, a solidariedade não se cumpre cabalmente.
A Ucrânia livre, democrática e independente é a única saída admissível para a civilização ocidental. Salvar a Ucrânia é salvar o mundo livre, neste sentido.
Um sacrifício supremo pela liberdade. Pela paz. E, sim, pela Humanidade.
(*) Médico