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Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Chega!… do Chega

19 de Fevereiro 2022

 

Nas eleições legislativas, o povo decidiu haver um partido com maioria absoluta (PS), um partido standardizado (PSD), dois partidos reconhecidos (Chega e IL), dois partidos penalizados (BE e CDU), dois partidos identificados (PAN e Livre), um partido desaparecido (CDS) e outros partidos não terem expressão eleitoral.

Tal como o juiz, o povo decidiu, está decidido, apesar das confabulações da noite eleitoral, das promessas de regresso dos heróis, dos lamentos de quem só vê o que quer ver, do renascimento vindo das profundezas, e da ilusão que se confunde com a razão, consoante cada força política.

Seria expectável que a prioridade informativa passasse pelos vencedores (com 41,6% dos votos), e pela alternativa democrática não aceite (com 29%). Mas a coqueluche da comunicação social, dos opinion-makers e das conversas de café não passa por quem teve mais votos, mas sim pela terceira força política (com 7,5%), que representa uma miscelânea de bravatas, um reflexo do saudosismo da ditadura, uma explosão do contra tudo e contra todos, numa verdadeira atracção fatal.

A moda e as audiências em que é mais fácil atrair desatentos, incautos e ressabiados, gerando discussão sem argumentos, palavreado sem significado, resquícios de futebolês, fel e vinagre qual droga recusada por Jesus na cruz, levou ao privilégio de ouvir o Chega sobre tudo o que mexe, como se fosse a estrela da companhia ou simplesmente o vencedor das eleições.

Afinal, a percentagem de votos obtida por essa força política está sobrevalorizada pelos mass media, se tivermos em conta que, 48 anos após Abril, data da libertação da ditadura, ainda existirão apologistas de Salazar, adeptos de Hitler, fascistas de ideologia, defensores da ditadura, anti-democratas comungantes da mão de ferro, simples conviventes com o deixa andar ou quem está no poder, ingénuos da dúvida metódica ou traumas adquiridos.

Pouco antes do 25 de Abril de 1974 verificaram-se manifestações populares em defesa do regime de Salazar e Caetano, havia a brigada do reumático (desagravo de graduados militares que foram prestar vassalagem a Américo Tomás, fantoche da ditadura), eram feitas festas do jetset na Quinta Patiño (hoje de João Rendeiro…) e os lutadores anti-fascistas, quaisquer que fossem, eram todos rotulados de comunistas como se tivessem lepra.

Depois do 25 de Abril, os defensores do regime anterior mostraram ser contra o que antes defendiam, criando a figura do vira-casaca, sem desprimor para os regenerados que invocavam desconhecimento das diatribes e malfeitorias do despotismo.

Não é por isso de estranhar que hoje, ressurjam das trevas figuras e ideias da tirania e da autocracia, que mobilizem os saudosistas da arbitrariedade e do privilégio, e que agreguem faixas de exclusão social que nem valorizam o RSI que recebem (criado por um governo socialista).

Afinal, não são mais do que 7%, e não representam o povo português que confia no sistema democrático (não o faz tremer como queriam os ultra), que deposita a sua confiança em liberdade despreza a vã glória de mandar, para oprimir, subverter, pisar.

Por isso, Chega!… de falar no Chega (o ponto de exclamação está no sítio certo, não é engano), e continuemos a desenvolver de forma sustentável o Portugal democrático, a estimular a cidadania participando, a criticar como direito de opinião sem escárnio e mal dizer, a contribuir para o sucesso do país, em coalizão pelos direitos humanos, e pelo bem-estar individual, familiar e da sociedade.

Ignoremos quem abre a boca para destruir, desconfiando, assediando, ameaçando, vangloriando. Na boca de quem não presta, o que é bom não tem valor (a democracia).

(*) Médico e socialista